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terça-feira, 16 de março de 2021

SEMJAZA & ASAEL

    O DIÁRIO DE AZAZEL - PAGINAS 2047 A 2053

Em todo o tempo ama o amigo; e na angústia nasce o irmão -   Provérbios 17: 17

Em todos tempos houveram amores proibidos, principalmente por diferenças sociais, raciais e econômicas, sempre, em toda parte do tempo da historia humana e animal, igualdade não foi mais que mera utopia. Nem mesmo, no Clã dos Corvos e no Clã dos Lobos, a hierarquia e os níveis, por mais sutis ou fluídicos que pudessem parecer, deixaram de existir.

Conheço meu lugar no bando e minha posição da alcatéia, sempre respeitei a disciplina Coventicular e no Aquerrale sei onde é meu lugar diante do Pai de Chifres. Nunca fui um sangue puro, não sou louco para apregoar uma inexistente avó-bruxa-monomastequitomizada. Posso até, por linhagem Ancestral, ser pedante chegar ao ponto de citar meus antepassados até Africanos escravizados trazidos no fétidos e maléficos navios negreiros para as terras de Pindorama, além disso, posso me dá ao luxo de juntar a lista Sacerdotes de Isese (Ifá) e Babalorisá, bem como, por árvore genealógica vários degredados pelo Santo Ofício pelo crime de heresia e feitiçaria, cujos descendentes são hoje rezadeiras e Catimbozeiros.

Mas jamais cairia na asneira de inventar um avó Sacerdotisa da Deusa, ou um avô Druida, pois bastaria uma lida em “Os Celtas” de T. G. Powell, “Uma Luz Sobre Avalon” de Maria Nazareth Alvim de Barros, “ Portugal: Terra de Mistérios” de Paulo Alexandre Loução, “ Náufragos Traficantes e Degredados” de Eduardo Bueno, e em “O diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil Colonial” de Laura de Mello e Souza,  para toda a farsa vir por terra.

Portanto, essa historia  - de beijar beiço de jegue achando que é arroz doce -  de um tempo pagão feliz, Matriarcal, em que a Deusa saltava lindamente pelos campos e os invejosos patriarcais da cristandade vieram e destruíram este reino de encantos e somente um pequeno grupo seleto de escolhidos - e entre eles estava uma suposta avó sacerdotisa bruxa que lhe deu um livro das sombras (copia  mal feita do roubado de Gardner) não tem sentido nenhum para mim.

Lembro que na época do Circulo da Lua eu já era “persona non grata” entre a pseudo nata de Bruxaria dentro e fora da Bahia por não advogar a causa da Bruxaria Matriarcal focada na mulher e num feminismo distorcido e muito menos por aceitar a Arte como religião.

Alias, a firmo sem medo até hoje, nunca houve uma religião da Bruxaria, houveram sim grupos de heréticos que viam no “Pai Diabo” muito mais amor e compaixão que no “Pai Deus”. Não preciso explicar o conceito religioso da época e nem o papel cruel da Igreja, em especial contra as mulheres. Vejo Grupos na internet adorando deusas cujas sociedades era patriarcais, sem se darem o direito de estudar, não só mitologia, mas história, antropologia e sociologia a qual a deidade pertenceu. Certa feita, só para ilustrar, fui convidado a um festival de Hécate, erroneamente chamado de sabá, onde foi sacrificado, como se diz na Bahia, um “moi de coentro”. Imagine uma Deusa Titânica, cujo papel na sociedade em que estava inserida é de fácil percepção, não sou no sentido ctônico e infernal, mas também de controle social, aceitado coentro como sacrifício. Quando lembro disso imagino Nosso Senhor o Qaiynn rangendo os dentes de ódio. Mas em fim, se existem milhares esperando a volta de Cristo, porque não haveria milhares esperando a Deusa voltar e restituir o mundo de “Sininho” de alguns.

Deixemos as diretas para lá e seguimos nos fatos concretamente abstratos, que valem mais apena. Os Sangues Puros existem sim, mesmos entre os Lobos, há aqueles que carregam a ressurgência não só na prática do ethos e aethus herdados, mas também no próprio DNA e no sangue que correm em suas veias, sangue este capaz de preservar a juventude por décadas.

Antes de ir morar nas Terras do Marquês, eu vivia na Cidade de Todos os Santos, Deuses, Guias, Caboclos e Orixás, uma cidade que pulsa, em seu Centro Antigo, toda uma alquimia de credos e fés, feitiços e ebós, um lugar como nunca dantes houve e nem haverá, cidade mística, onde todo mundo é d’Oxum.

Derrepente uma voz surgiu atrás de mim e falou – Os Anciões querem lhe ver. – Era Adnadyel o mensageiro. Ele se referia aos pálidos, aqueles que por serem descendentes diretos de Semyaja, o líder dos Vigilantes, como são chamados os 200 anjos que abandonaram sua habitação original no céu e desceram à terra e se misturaram com as filhas dos homens, os autodenominados sangue puro.

Eu já os tinha encontrado e até tido contendas com eles, paguei meu preço. Ele  então antevendo  meus pensamentos disse: Dessa vez eles precisam de você, estão com um problema nas mãos e querem que você segure a galinha pulando nos peitos – e depois riu copiosamente.

Seguimos para Igreja e as portas da Igreja se abriram e entramos, eram um lugar sombrio, velas espectrais iluminava o lugar, almas atormentadas choravam e lamentavam em sofrimento, ainda esperando que UM viesse salvá-los, não entenderam que UM não era o que as religiões ensinavam, portanto sofriam e se lamuriavam – passamos por elas, e fomos até a nave, abaixo do altar uma passagem secreta nos levou a um salão em mármore azul, com diversas poltronas de marfim e cobertas de cetim, crânios enfeitavas os braços delas, a luz era bruxuleante.

Benvindo Azazel – me disse uma voz secamente que reconheci na hora, era Urakabarameel, por quem nutria um aversão sem igual, ele continuou: temos um pupilo, ele foi criado por pais de Barro, mas chegou a hora dele saber quem é, e, nós não  conseguimos fazê-lo entender que ele herdeiro da raça pura.

Em tom sarcástico respondi ao pálido Urakabarameel – Que tenho eu haver com o problema de vocês? Não vou  cuidar do filho de uma raça que despreza a minha, quem pariu e bateu que balance!

Urakabarameel levantou-se e vociferando disse: quem é você seu mestiço, sua besta filho de uma lobo para recusar um pedido do Conselho, sua raça ruim de sangue sujo, só ainda existe pela nossa benevolência.

Quem sou eu? – disse e continuei – Sou aquele mestiço que enfrentou Azazel face a face e o venceu e ele se viu obrigado a dar-me o próprio nome de herança, eu sou aquele que diferente de vocês covardes - que se esconderam da face de UM pelo oproprio causado a própria raça - mostrou a cara ao Sol. Seu orgulho de ser raça pura de nada vale, eu carregado o nome e a marca da raça dos Homens-Lobos por merecimento, eu não me escondi feito um rato, e quanto a destruir o barro que é meu corpo, o fogo habita em mim, saiba velho, que eu fui até UM, e eu escolho quando e onde nascer, eu escolho meu destino.

Urakabarameel gritou: Cale-se seu filho de uma besta.

Eu retruquei – Sou filho de uma besta-loba com Qaiynn, que preferiu uma Bruxa que as suas filhas, Qaiynn é meu pai  por herança de nascimento, não tenho alma de luz dele e reconheço isso, mas tenho alma de fogo, eu sou Azazel Qaiynn Semjaza, por sangue derramado, por pacto com Diabo, eu matei Abel em mim e me libertei da escravidão, eu ensinei os meus a serem livres e não temerem a morte e nem temerem a vocês que matam corpo e esquecem que o fogo se renova na existência e a luz ascende  e desaparece um UM, eu os ensinei a irem diante de UM e exigir o direito de ser quem são, então preste atenção velho eu não sou como os fantasmas da Igreja acima, sou herege por natureza. Jamais ouse me ameaçar outra vez.

Antes que Urakabarameel me respondesse, uma voz na penumbra do salão nos interrompeu: Semjaza, eu sou Asael e também carrego o sangue de Azazel, peço em meu nome e não em nome deles que aceite ser meu tutor.

Urakabarameel, com os olhos quase em sangue e espumando ódio como um cachorro com raiva o interrompeu – Esse arrogante se acha no direito de nos dizer não, irei extermina-lo dessa vida.

 Eu ri alto e e respondi: eu renascerei e o condenarei a me perseguir sempre, será seu castigo.

A Confusão estava formada, os velhos pálidos gritavam me ameaçavam, juravam que iria sorver cada gota de sangue em mim – e eu em tom de ironia dizia: sangue de lobo? Vocês farão como Qaiynn? Que misturou seu sangue as filhas da bruxas em forma de lobas no cio?

Asael, da penumbra em que estava, por fim os convenceu e a mim também que eu seria a melhor opção para treiná-lo, acertada as coisas. Saímos, Eu e Adnadyel, por onde entramos ao som dos choros e rangidos dos fantasmas da cristandade, seguidos por Asael, que vinha atrás ainda envolto em penumbras. Quando me encontrava na frente da Igreja Asael, disse nos veremos outra vez, me reconheça.

Passaram uns dias, e lá eu estava subindo e descendo as vielas onde meus antepassados escravizados era chicoteados até sangrar, mergulhado numa viagem de tempos outroras ali vividos, derrepente senti uma presença atrás de mim, virei-me de pronto, meus olhos castanhos cruzaram com dois olhos verdes, eu estremeci, ele era a imagem do Querubim Medieval, cabelos anelados, pele clara como o leite, recoberta de penugem douradas, seu corpo esguio, bem modelado, seu  rosto ainda com os sinais da puberdade, ele parecia ser esculpido em mármore puro e raro por Michelangelo, e os sinais da adolescência não fazia jus a todo o conhecimento que sua alma carregava. Na hora percebi que ele era da Linhagem pura, sua tez quase pálida, sua voz grossa, exarava toda a masculinidade que seduziu as filhas do barro vermelho na queda dos vigilantes.

Dono de uma beleza ímpar, ele talvez – ou não - não tivesse noção que se alimentava das almas e sangue dos que eram enfeitiçados quase que instantaneamente por sua beleza.  Ela me seguia já há tempos, parou e disse:  Se eu fosse um ladrão já tinha roubado.  Eu quase sucumbo de imediato a seus encantos, não que isso fosse à vontade  dele, pelo contrário, sentir que algo atormentava seu Espírito. Era o “Primeiro Amor”, sim o amor que seus antepassados sentiram pelas pobres filhas do Barro, que estavam condenados a uma vida de progressão lenta e dolorosa para chegar a perfeição de auto-deificação, aquele amor que levou os Guardiões a abdicarem de seus postos diante de UM e desceram à terra do pesadelo, para prepararem os mortais para possuírem almas imortais e serem Egos-deificados, aquele amor-primal, que os condenou a terra de Areruza, ao Deserto Escaldante, as mundos infernais – dentro do profundo da mente animal, para que, de dentro para fora, forjem o homem de fogo e luz.

Eu o amei instantaneamente, não com o amor de corpo, mas com, um amor que vai, além disso, minha alma, sentiu-se não seduzida, mas aconchegada, acolhida, protegida dentro do circulo do primeiro-amor. Ele também, me amou, mas do que ele próprio imaginária, as muitas vidas e almas que vivemos e tivemos falaram nele, por ele e para ele, e em mim, por mim e para mim, e por nós. Ele sorriu, foi como se um raio de luz, uma luminescência de ouro, iluminasse tudo ao redor, o tempo parou, e por segundos que pareciam séculos, eu ao amei outra vez, o amei, ao ponto de querer fundir-me a ele de corpo e alma e ser um com ele, a palavra amor naquele instante fazia todo sentido – troca -  a palavra desejo ultrapassava o limite do mensurável.

Com aquele sorriso, ele me fez mergulhar no amor-primal, num amor sem limite que se sente, além dos sentidos e da biologia, que se quer além da morfologia. Ele se revelou na sua similitude e disse coisas símeis aos fatos sem expressar um som. Mas, enquanto aquela epifania explodia, no meio de seu sorriso, ele disse, “Semjaza”, e o mundo voltou a ser o que era, a velha Praça do Mirante, diante de nós a beleza do mar da Baia de Todos Santos e atrás de nós a velha e quase abandonada pequena capela de Nossa Senhora dos Navegantes onde haviam encontrado os Anciões.

Eu perguntei quem é você?

Ele respondeu: Me reconheça....

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O texto é uma homenagem a Clóvis Júnior (Asael Semjaza Lvnae) meu amigo e irmão desta e de outras vidas, o qual sempre vem me inspirado a nunca deixar morrer a chama lucífera que arde no sangue Lvnae.  O  texto é uma ficção e como tal ele  diz mentiras símeis aos fatos, “e dizer mentiras símeis aos fatos é furtá-los à luz, encobri-los. As mentiras são símeis aos fatos enquanto só os tornam manifestos como manifestação do que os encobre " ele, revela assim, similitude que se oculta na verdade e na mentira no estreito caminho entre o cinismo e a ingenuidade...

 

 

segunda-feira, 22 de abril de 2019

O PREGO QUE NUNCA ESFRIA - PARTE II


O DIÁRIO DE AZAZEL - PAGINAS 2035 A 2041



...Voz rouca, quase ronronante, falada pausadamente, como se houvesse dificuldade de respirar, e por isso, o som saia pela narinas: Gael.... amigo...!!! Era impossível não ligar aquela voz, a imagem do menino alto, pele branca quase beirando a palidez, de rosto recheadas de espinhas, com sorriso largo que iluminava sua face, cabelos encaracolados e olhos cor de multicolorido...

Lembrei-me que alguns anos mais tarde - vi uma imagem dele numa rede social - como todos de sua raça, ele assumiu uma aparência quase élfica, estava mais alto, seus cabelos longos e dourados cai-lhes nas costa e parte repousava sobre seus ombros, o corpo tatuado, porém, não havia perdido o sorriso de luz....

Novamente....minha mente era arrastada para a zona fora da zona da consciência no meu próprio sono... Fui sugado pelo caminho contrário ao meu estado hipnogógico [1], e o sonho sonhado na carne, voltava em sorvedouros ao sonho sonhado na mente e dormido no corpo.

Já não estava mais acordado na consciência, já não mais sonhava um sonho-feito-carne, mas um simples sonho comum, experiências de imaginação do inconsciente.

Mesmo no estado do sonho-comum, as imagens geradas no sonho-feito-carne acompanhou minha consciência  pelos caminhos de retorno a tal ponto que veio reverberar no sonho-comum como conjunto de imagens e pensamentos. A verdade é que eu fui tão impactado por aquela voz que mesmo estando dentro do campo daquilo que “Jung” dizia ser “um produto psíquico como qualquer outro ... uma revelação do inconsciente sob a forma de imagem, metáfora e símbolo” [2], fui capaz de ouvi-la e de associá-la as imagens vista no sonho-feito-carne.

Acordei sobressalto, afinal havia muito mais que quinze anos que não tinha noticias dele lembrei-me que fui chamado pelos Anciões da Cidade dos Santos para servir de tutor por um ano, eles acreditavam -  por eu ser um mestiço – que eu saberia lidar com a rebeldia daquele garoto de dezesseis anos, cujos hormônios estimulavam seus desejos e agressividades.

Estávamos naquela época no final dos anos 90, então não havia a tecnologias que há hoje - de inicio, os Anciões providenciaram minha mudança para o Centro da Cidade dos Santos, assim, seria fácil para eles promoverem aproximação entre nós, sem que “J” notasse. 

Alias, havia neles uma preocupação – mais tarde confirmada – que ânsia de viver a vida, pudesse desviar “J” de seu destino, o que de fato aconteceu por alguns anos.

Eu deveria como tutor - ensiná-lo controlar seus instintos, a domá-los e direcioná-los. 

Achei a missão estranha - afinal eu sempre vivi por instinto, na lógica predador x presa - na minha lógica os apegos são prisões e pontos fracos do predador que qualquer adversário poderia explorar, por isso não há nada e nem ninguém que me prenda ou não havia até aquele momento.

Os Anciões de algum modo sabiam que eu me ligaria a “J” e ele a mim, com maestria eles – os Anciões - pretendia que nossa união nos tornasse vulneráveis e controláveis por eles - matariam dois coelhos com uma só cajadada – manteriam um sangue-puro e um mestiço sob sua égide.

De inicio o plano dos velhos pálidos parecia ir bem, quando eu e “J” nos encontramos naquela intercessão do caminho, um elo se formou e como previsto pelos ambrogios [3] de pele pálida, nossas almas se ligaram,  ele trazia na veia o mais puro sangue ambrogino e nas minhas veias corria o sangue mestiço das duas raças – desprezadas – inimigas entre si e entre os pálidos. “J” deveria me desprezar e eu o odiar pelos que somos e pelo que representamos – ele a (pseudo) pureza de sua raça e eu a vergonha das minhas – sempre errante, sempre andarilho, nunca aceito nem pela raça dos lobos e nem pela raça dos homens, imagine pelos soberbos de pele pálida, que se alvoroçam sempre em proclamarem-se os puros de sangue – o verdadeiro fruto e a descendência única  - da maldição de “UM” sobre “Qayinn” - depois que o sangue de Abel manchou de vermelho o chão de barro do Éden.

Para mim, era estranho que um daqueles velhos soberbos e arrogantes, me oferecesse tão missão – certo que por obrigações de manter a paz - eu não poderia esquivar-me de ser tutor de um seu parente puro sangue.

Mas, “Destino” não cria subjugados, ela não gera domesticados – na forma de  Az-Jeh, ela gera Daemons-Djinn, as rebeldes criaturas de ar, fogo e luz – indomados e selvagens, livres para serem quem devem e querem ser – em suas milhares de forma de ser e manifestar. Para AZ suas crias não se limitam a serem apenas aquilo que sua forma de barro manda ser, mas devem transcender.

Eu e “J” nos ligamos quase que de imediato, eu sentia que algo a mais nos unia – como eu poderia saber naquele momento, que ele não era 100% puro [4] o explicaria a rebeldia que somente um hibrido possuía

Eu deveria entender que aquele pálido soberbo ancião não poderia arriscar um tutor de puro sangue – a falta de submissão e de importância as regras, as etiquetas e normas de “J” o faria notar a que raça de fato ele pertencia -  por isso, eu era o escolhido, afinal sendo ingênuo - tinha saído de um lugarzinho no interior, não tinha conhecimento total da história das raças que habitam os mundos e entre os mundos.

Levantei da Cama fui direto para a cozinha, coloquei a panela com água no fogo, depois de alguns minutos estava tomando uma xícara com café bem forte. Meus pensamentos ainda estavam ancorando naquela voz e nas imagens que ela remetia .

Nós começamos a trilhar os caminhos da antiga-arte da sabedoria, a principio, usando como máscaras de Nosso Senhor a forma de Pã e Nossa Senhora a forma Hécate – eu não sabia até que ponte ele havia sido instruído na nas verdades das Artes do Diabo. Então eu estava conduzido nos vários ritos de indução à Gnose - tanto angelical quanto bestial – mas sempre sob o véu da forma dos deuses mortos – assim era mais fácil fazê-lo alcançar os resultados usando a linguagem do símbolo. 

Em relação a natureza de seu comportamento, sempre comigo foi gentil, calmo, sereno, atencioso, jamais o via levantar a voz – apesar de achar que ele, as vezes parecia um barril de pólvora preste a explodir – nem se quer uma única vez.

Eu o amei mais que amei qualquer um – eu não o desejei – eu amei como uma extensão de mim e estranhamente ele correspondia esse amor de igual modo - não havia desejo e luxuria no sentido humano, mas ambas existiam na forma, sentido e manifestação do caminho tortuoso. 

Ele progrediu tão bem – terminado o prazo fomos separados abruptamente. Eu recebi dentro das Artes do Diabo - como recompensa – aprendizados profundos e conhecimento relevantes e segredos que poucos da minha espécie-mestiça de proscritos tiveram acesso -  ultrapassei o véu da forma dos deuses mortos e decaídos para aquilo que palavras não traduzem.

Terminei meu café, voltei a realidade – outubro de 2017 - eu precisa ir para o trabalho - afinal a Cidade Industrial distava cerca de uma hora do Distrito Policial. 

Cheguei ao Distrito e passei o dia pensando no sonho, as pessoas notavam que eu estava estranho, diferente, distante, calado. No fim do expediente retornei para casa.

Em casa aquilo não saia da minha cabeça -  Derrepente fui tomado por aquela velha sensação de que algo estava por acontecer – eu sentia que alguém estava vindo – e a vibração me era estranhamente familiar, era como a sensação de ter ouvido aquela voz no sonho-feito-carne ao ponto de fazer retornar ao sonho-feito-mente.

Fui retirado desse estupor [5] pelo som insistente da campainha, ainda em sobressalto e ofegante, olhei por cima do muro – já que a parte de dentro ficava muito mais elevada que a do nível da rua – haviam dois homens lá,  eu disse  -  boa noite -  e ambos levantaram a cabeça.

Um deles reconheci de imediato, mesmo tendo agora cabelos curtos e negros – era impossível para ele esconder aquele sorriso - que ao me ver iluminou seu rosto e deixou seus olhos a mostra – a depender da luz seus olhos variam de um castanho claro, passando por um verde água-marinha à um azul claro. 

“J”  já não era mais o jovem surfista rebelde de longos cabelos dourados – cuja foto havia visto no antigo Orkut a mais de dez anos - mais um homem feito.

Ele já havia assumido seu papel entre os da raça puro – apesar dela saber, assim como, a sua origem – estava se preparando para no futuro ser um Ancião.

Pausadamente,  respirado sempre entre cada palavra, falando um pouco pelo nariz, mas com a voz sempre rouca  disse -  se arrume e vamos ali - abri o portão e ambos entraram, arrumei-me e fomos uma pizzaria na parte social da Cidade Industrial.

Colocamos o papo em dia, falamos por mais de uma hora – sempre sob o perscrutante olhar do outro homem que parecia um segurança – como que adivinhado meus pensamentos ‘J” disse, naquele forma peculiar de falar e sempre com aquele sorriso que me deixava impactado – “ele é  um cuidado à mais e uma desculpa aos Anciões para eu poder sair com um pouco de folga”.

Comemos, ele tomou duas cervejas e disse – não é sempre que posso me dar ao desplante de tomar um cerva bem gelada com um velho amigo – depois de algum tempo, ele tornou a falar:  Você deve sair da Cidade Industrial e ir para o Distrito Policial – aqui já não é mais segura, eles não pode mais garantir a sua segurança, muitos não gostaram de você ter tido acesso aos segredos além da forma e além do véu – por isso parta antes que ano vire – segundo informações alguns desgarrados estão sendo enviados para vigiar seus passos.Eu quando soube disso - na verdade, eles mandaria outro e por meio do portal da hipnogogia -  me ofereci em nome da gratidão que me consome. Quando penso em ti desejo que o tempo volte e que fôssemos nós outra vez - não duas almas, mas uma só, não duas pessoas estranhas, mas dois irmãos vindo de uma mesma mãe “Destino”.  

Levantou-se, e, logo outro carro se aproximou para levar-me de volta para casa, mas antes de entramos nos respectivos carros, ele novamente me abraçou e sussurrou - "EGO DABO, SEMPER ITA LOQUI TECUM...  ALEA JACTA EST”. – entrou no seu carro, sorriu pela janela, fechou o vidro e o motorista arrastou.

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Este texto e a continuação de: O PREGO QUE NUNCA ESFRIA - PARTE I -  encontrado em 

https://azazelsemjaza.blogspot.com/2017/11/o-prego-que-nunca-esfria-parte-i.html. 


Ambos construídos a partir da reflexão de um sonho, por isso ele, assim como seu antecessor, é uma mentira símel a um fato... “e dizer mentiras símeis aos fatos é furtá-los à luz, encobri-los. As mentiras são símeis aos fatos enquanto só os tornam manifestos como manifestação do que os encobre " ele, revela assim, similitude que se oculta na verdade e na mentira no estreito caminho entre o cinismo e a ingenuidade.....


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[1] Hipnogógico: Adjetivo derivado de Hipnogogia. Relativo ao estado alterado de consciência, intermediário entre o estado de Vigília e o de Sono, durante o qual o indivíduo fica receptivo à percepção de sons e visões.


[3]   Imortais.

[4]  Sua bisavó amou um humano, sua avó-mestiça amou um puro sangue e sua mãe amou outra da raça de seu pai – isso faz dele de certa forma, mesmo que distante, um mestiço – mas isso era um passado que sua família escondia.


[5] Estupor: Medicina - estado de inconsciência profunda de origem orgânica, com desaparecimento da sensibilidade ao meio ambiente e da faculdade de exibir reações motoras. No texto tem o sentido de EXTENSÃO FIGURADO: imobilidade súbita diante de algo que não se espera; grande surpresa, espanto, assombro.




sábado, 18 de novembro de 2017

O PREGO QUE NUNCA ESFRIA - PARTE I

O DIÁRIO DE AZAZEL - PAGINAS 1888 A 1893

A Madrugada ia já alta, eu dormia pesadamente, mas por mais estranho que pareça, eu tinha total consciência no meu próprio sono. Dormia, mas estava acordado na consciência, sonhava, um sonho, que sabia ser sonho, mas não um sonho comum, não era uma experiência de imaginação do inconsciente no período de sono, era bem diferente disso,

Eu sabia que estava dormindo, e mas ao mesmo tempo que estava passando pela experiência que chamo sonho-acordado. A principio,, ele era recheado de pavores e Eu estava em minha própria forma - este foi um dos raros sonhos em que nenhum sinal de ressurgência atávica[1] licantropica [2], ou mesmo a metamorfose em animal, se manifestou.

Em seguida, o êxtase tomou conta de meu corpo e mente, e abriram-se campos verdes sobre os quais eu flutuava a poucos metros da relva e dos arbustos. Meu corpo sobre a cama havia sido possuído por outra consciência que não era a minha, enquanto minha consciência (alma) se expandiu além do limite possível e espectro visível, mas ainda tendo total consciência de que estava ligado a meu corpo, mas não podia controlar as ações, palavras e pensamentos dele, ou que através dele fluía. Ah!!!, é assim a possessão, ou acostar, este é o verdadeiro estado de ser possuído, a consciência não é apagada, mas tomada e levada a habitar o corpo imaterial do ser que momentaneamente está acostado em meu corpo. Deste modo, há uma permuta, um intercambio entre meu corpo carnal e o corpo sutil além do véu que é a morada da Alma (consciência viva) daquele que possui meu corpo.

Uma melodia de tambores, ritmado, compassado, acompanhado por vozes, como de águas a cair, e vento a sobrar sobre as folhas, exaravam palavras num língua ancestral já muito esquecida e morta deste lado palpável da cortina:

Há momentos de silenciar e ouvir a voz do Tempo,
O fluxo e refluxo que Destino move e remove
No interior de cada um e seguir em frente e seguir em frente.

Quando a força de mudar te move e você resiste,
Insiste em permanecer na sua velha e boa zona de conforto,
Enrolado no coberto da mesmice, da dormência do corpo,
Sua alma fica inquieta e movimenta as correntes
Que te levam para frente, observe, pense,
É hora de silenciar e ouvir a voz do Tempo,
O fluxo e refluxo que Destino move e remove
No interior de cada um e seguir em frente.

Quando o medo te domina, e te cegas como antes,
E já não consegues ler no teu passado remoto,
O que tua resistência a mudança te causou
E já não consegues fazer a analogia, entre o ontem, o agora
E o que te espera amanhã, observe, pense,
E hora de silenciar e ouvir a voz do Tempo,
O fluxo e refluxo que Destino move e remove
No interior de cada um e seguir em frente.

Quando os teus planos são frustrados, o amor escapa,
O relacionamento acaba, e, nas sombrias horas da madrugada
Quando estender o braço e ele já não alcançar o abraço,
Ou o lugar ao lado já não estiver ocupado pelo ser amado,
Bate aquele o frio e solidão, palpita o coração,
A angustia e escuridão, se anunciam e se prenunciam
Num silencio ensurdecedor gritado sem som, observe, pense,
É hora de silenciar e ouvir a voz do Tempo,
O fluxo e refluxo que Destino move e remove
No interior de cada um e seguir em frente.

Quando o pavor se faz presente
E a única saída seria dando cabo a vida,
Achando que se resolve a querela,
Grotesco erro seria aniquilar aquilo que um dia,
Te foi dado, de bom grado,
Pois a morte não resolve os teus problemas
Criam outros para os que te amam, por isso,
É neste momento que é preciso
Silenciar e ouvir a voz do Tempo,
O fluxo e refluxo que Destino move e remove
No interior de cada um e seguir em frente.

Em seguida, o intercambio foi desfeito, meu corpo foi desacostado, despossuído, cair para dentro de mim, e a mente foi envolvida pelo breu, no escuro, sono profundo - nenhum vislumbre ou faísca que tanta ansiava se fez presente - e somente, a certeza vívida que eu dormia o sono do justo, e mesmo mergulhado neste sono eu sabia que eu estava dormindo, e aquela estado de despertar no sono não acordava meu sono e repouso do corpo -  Eu estava dormindo. 

Estranho explicar, traduzir em palavras este sono profundo do corpo, e ao mesmo tempo, a consciência latente e vibrante, em dois lugares – no aqui no corpo na total certeza do sono e lá por detrás da barreira do próprio sono, eu estava entre um estado de espécie de dormir, sonhando, acordado, dormindo.

Os dois estágios deste sono – sono de possessão e consciência do eu por detrás do sono – têm em comum, a ciência de saber que se está ligado ou possuindo um, o corpo do outro.

No segundo caso, o meu eu tem plena consciência de que está dormindo e de que o meu corpo não está possuído, portanto, palavras, e ações, ou até reverberações que aconteçam nele, é conseqüência dos contatos que minha Alma (personalidade, Ego ou Eu) têm nestes estágios. 

No primeiro, tratando-se de permuta de Almas-Conscientes, entre o corpo imaterial (Alma Conscientes, Espírito, Guia, etc..) e corpo material, ou seja, entre o Ente de além e o Eu de aquém, onde ambos mantemos a consciência dos nossos próprios corpos pessoais, mas não temos consciência dos atos e palavras que cada Personalidade praticou, ou seja, não controlamos as ações e palavras em cada mundo quando há permuta de personalidades, assim, um é responsável pelo corpo do outro e pelas ações e palavras que emitirem em cada mundo que se manifestem por esta via.

Em palavras simples, há a ligação, para que a permuta aconteça, sim, os semelhantes se atraem e nisso há varias imbricações, que não há como discorrer, pois cada um sabe a estrada que trilha e com quais forças ou mundo está assemelhado. 

No Segundo caso, acontece é que minha mente busca os atalhos que a mantém alerta para os contatos alem do que pode ser mensurável, e ali e aqui, são trazidos augúrios, presságios, visões, alertas, ensinos, encontros com seres e pessoas as quais me dizem tudo ficará ai na Alma-Consciência e virão a superfície da mente no corpo no momento certo.

Todo este assunto, introdutório foi para contar às experiências que venho passando: Nesta noite, sonhei, um sonho de não possessão, era um destes que vem em forma de augúrios que somente a mente que viaja sem muletas – através da Abertura do Olho do Diabo e do Feitiço do Encanto que induz a voar – compreende:

Estava na cidade de Jerusalém, próximo à páscoa Judia, por volta do ano 23 ou 24, Israel estava sobre o domínio Romano. Havia rumores de que haveria um levante, pois um profeta Judeu havia sido preso e condenado a crucificação, o Governador Romano queria que sua morte fosse um espetáculo e assim levar terror, pavor e medo aos seus seguidores.

Meu pai havia armado sua tenda de Ferreiro fora dos muros da Cidade Santa, de certo modo, eu sabia que não era dali e que não tinha lugar ou pátria certa, pois quase sempre quem passava nos dirigia impropérios e cuspiam no chão, nos chamando de “Racas” e “Gitanis” ou algo assim. Nós éramos diferentes daquele povo, nossa pele era mais escura, devido ao forte sol e as mudanças de lugar, éramos um povo sem nação. Minha Mãe era uma escrava liberta Africana e meu Pai descendia de Judeus dispersos, mas tornara-se, como diriam hoje um adorador de imagens, porém, era um exímio ferreiro, fazia ídolos e tudo que o metal pudesse proporcionar. Não ligávamos para os xingamentos, desde que pagassem pelos serviços de ferreiro, e em tempos de festa religiosa como aquela, não nos faltavam pedidos e as moedas caiam e enchiam o baú de meu Pai. 

Foram tantas encomendas, que não havia mais metal para ser trabalhado, por volta de 03h00, fomos acordamos por um Centurião, que trazendo trinta moedas de pratas, ele disse simplesmente para o meu Pai, “...este é o preço da traição, tome e forje quatro pregos, agora!!!...”. De imediato, a forja foi acessa, e as pressas quatro pregos, estavam sendo forjados, martelo na bigorna, batendo o ferro em brasa, o sol já ia surgindo, enquanto três pregos estavam prontos, e um quarto na forja em brasa. O centurião interrompeu o trabalho do meu pai e disse, “o quarto, leve-o ao Monte Caveira” e saiu apressado, meu pai, com a pinça, mergulhou o quarto prego na água, mas ele não esfriou, pelo contrário fico incandescente, num descuido entrei na tenda e esbarrei em meu pai, ele deixou o prego cair e este afundou na terra e desapareceu. Meu pai assustou-se, e ordenou que fossemos embora depressa, enquanto o cortejo da crucificação saía, nós estávamos a caminho do Egito, antes da partida meu Pai jogou as trinta moedas de pratas no chão e disse, isto é preço de sangue de um justo. Estamos amaldiçoados. E toda vez que firmávamos a tenda em outro lugar, e já estava na hora de partir, o prego emergia de sob a terra, o prego que nunca esfria.  

Passaram as épocas, anos e décadas e em fim no seu leito de morte meu pai me disse: 

“...Filho, toda vez que o prego ressurgir – o prego que nunca esfria - mude de lugar, pois o perigo está por vir, sempre veja este augúrio, este é o teu sinal. Aquele que foi morto na cruz com os três pregos e MelekTaaus, ele é nosso parente por meio da linhagem de Qayinn, mas para este povo ele assumiu a forma do avatar de profeta judeu, e, para nós ele será sempre o Anjo-Pavão, o Deus Lobo, Azazel o Caído no Ventre da Virgem do Paraíso, segura o arco e a flecha que te garanta sustento e proteção, leva contigo espelho onde vemos o futuro e as cosias do outro mundo e é neste momento que é preciso, silenciar e ouvir a voz do Tempo, o fluxo e refluxo que Destino move e remove, no interior de cada um e seguir em frente. 

Fechou os olhos e foi-se habitar junto aos meus antepassados".

Quando o sonho ia já por fim, uma voz familiar - voz que não ouvia a mais de 15 anos – me trouxe de volta ao mundo do breu e....

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Texto construído a partir da reflexão de meu sonho, por isso o texto tornou-se mentiras símeis aos fatos... “e dizer mentiras símeis aos fatos é furtá-los à luz, encobri-los. As mentiras são símeis aos fatos enquanto só os tornam manifestos como manifestação do que os encobre " ele, revela assim, similitude que se oculta na verdade e na mentira no estreito caminho entre o cinismo e a ingenuidade.....
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[1] No folclorelicantropia é a capacidade ou maldição caída sobre um homem que se transforma em um lobo. Em psiquiatria, é um distúrbio onde o indivíduo pensa ser ou ter sido transformado em qualquer animal. O termo provém do grego lykánthropos (λυκάνθρωπος): λύκος, lýkos ("lobo") + άνθρωπος, ánthrōpos ("homem").

[2] Atavismo (do latim atavus, "ancestral") é o reaparecimento de uma certa característica no organismo depois de várias gerações de ausência. Em biologia, atavismo é uma reminiscência evolutiva, como reaparecimento de traços que tiveram ausentes em várias gerações. Pode ocorrer de várias maneiras. Uma maneira é quando genes para características previamente fenotípicas existentes são preservadas no DNA, e estes tornam-se expressar através de uma mutação que quer nocautear os genes primordiais para os novos traços ou fazer os traços antigos substituírem os atuais).
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sábado, 12 de agosto de 2017

ALEA JACTA ESTE - PARTE VIII


O DIÁRIO DE AZAZEL - PAGINAS 1789 A 1793

Ola querido Diário, quero deixar em teu corpo um dialogo símil aos fatos, preste atenção: simplesmente ele lançou as perguntas e queria respostas imediatas.

Respirei fundo... e já ia responder – mas ele, de pronto, fez aquela cara de Magister  com aquele ar de quem sabe nos deixar no meio de uma poça de areia movediça, disse: “Nada de respostas elaboradas, cheias de símbolos, nem regada com aquele ar pseudo-mistérico, quero respostas simples e que de fato possa traduzir o que você pensa”.

Juro que deu vontade de pular naquele pescoço fino e esganá-lo até ele pedir arrego, depois bater nele com um gato morto até o gato miar ressuscitado, mas sendo seu pupilo, meu regresso no seio da família está em suas mãos. 

Contive meu ímpeto de matá-lo, pois os sinais do atavismo era bem nítido em mim e se viessem a superfície ali seria catastrófico, há tempos sentia falta de um covil pois há muito havia deixado a minha antiga matilha e levado o meu antigo conciliábulo para além do véu, afinal numa matilha quando a lealdade é posta em dúvida é porque os laços de sangue estão abalados e é preciso dissolve-la para que os demais membros possam ser livres para buscarem seus próprios destinos. Alguns dos meus antigos aliados diziam que a marca do lobo proscrito estava cada vez mais forte e que não estavam pronto para a flama negra.

Ele interrompeu minha distração e como se soubesse o que eu pensava ele arrematou: djavú ou devaneios são âncoras.

Engoli em seco, e resignei-me ao seu olhar de Ferreiro que batia o ferro em brasa, ele continuo – já não está na hora de jogar água no prego que nunca esfria? – e sem esperar minha resposta, repetiu as perguntas. Por que escolheu a Bruxaria e não outra religião?

Respondi de pronto: Logo de inicio percebe-se duas contradições primária acerca da Arte Sábia e que tem sido motivo de confusão entre os praticantes das chamadas religiões neo reconstrucionistas pagãs.

Ele disse-me: Explique.

Continuei minha resposta: A Primeira coisa é entender, que ao contrário da opinião da maioria dos pagãos (que na sua maioria são anti-cristãos), é que Bruxaria não é Religião.

Ele contra argumentou: Simplifique.

Continuei: a palavra religião, como é entendido na nossa sociedade atual, vem da junção de dois termos latinos: Religio + onis  significando um conjunto de sistema culturais e de crenças, além de visões do mundo, que estabelece os símbolos que relacionam a humanidade com a espiritualidade e seus próprios valores morais, neste sentido, aplicar-se  a religião a palavra Religare,  ou seja, ela  tem por objetivo religar o ser humano ao sagrado e através disso dita as regras morais da convivência social.

Então – disse ele e prosseguiu – em palavras simples, você está dizendo que ela dita toda a vida e convivência em sociedade?

Completei minha resposta anterior dizendo: O Bruxo ou Bruxa tem consciência que o sagrado não só permeia a natureza toda ao redor, mas a si mesmo, e este si-mesmo-bruxo, está sempre em harmonia simbiótica e comunhão com a natureza-divina. Portanto, o Bruxo percebe-se ligado ao divino, e como parte do divino, do incomensurável, do indomável e do amoral de UM-ACIMA. Assim, sabe que já veio ao mundo por meio de um ato sagrado de sexo. Ele sente e vive, o vir a este mundo - que apesar da moral vigente ver como algo ruim - com uma forma expressão do sagrado e como manifestação de sua raça. Apesar de saber que vive neste sagrado, tem também, ao mesmo tempo, consciência de que sua raça é das estrelas, e, assim, sua compreensão do sagrado e do divino, não se resume apenas ao nosso planeta, mas também a todos os mundos visíveis e invisíveis, que já habitou e que vai habitar.

Ele parou, pensou um pouco, e então falou: Você está então dizendo que o Bruxo é uma manifestação do sagrado, é um filho do sagrado, e que ele mesmo é sagrado?

Exatamente isso – respondi e completei - Por isso, para eles não há sentido em religar-se aquilo que já nasceu ligado, do qual faz parte e que é expressão e manifestação. De igual modo, a palavra escolheu, na pergunta, fica sem aplicação, porque para se fazer parte de uma religião é necessário na maioria delas um ato público de conversão, ou seja, que se associa-se a seu credo de fé, as sua regras e a sua moral, e que a veja, como a única e verdadeira e que as demais são erradas.

Ele concordou balançando a cabeça e eu desta feita foi minha vez de arrematar: ipsis verbis.

Quando achei que ele estava satisfeito, ele lançou a segunda pergunta: é preciso estender um pouco o sentido das palavras escolheu  e escolhido, como visto na pergunta anterior, então responda, você escolheu ou foi escolhido por ela?

Prossegui na resposta: nas religiões, inclusive - apesar de seus adeptos não gostarem no termo - as pagãs reconstrucionistas, é preciso um ato público de conversão, e quando este ato não é público, o novo convertido o torna - na maioria das vezes nas redes sociaisexpressando suas crenças em vestes, textos, criticas as demais crenças e/ou em discussões intermináveis e sem sentido, nas quais se  digladiam, para provar que o outro está errado,

Ele acendeu um cigarro, baforou, então provocou-me:  ou seja, usam uma forma chula de psicologia reversa para demonstrar que a sua forma de praticar a religião é única e verdadeira ?

Não me intimidei com a pergunta e rebati de pronto - isso mesmo, eles busca provar o erro do outro – segundo o seu ponto de vista – e assim acham que demonstram que a sua forma é a certa.

Mas muitos que se dizem Bruxos Tradicionais também agem assim e ai? – Ele disse com aquele ar de quem me botou contra parede.

Não discordo disso – falei e continuei – o que falta tanto em uns como outros, é entender que a Bruxaria é uma herança dos caídos aos seus descendentes. Outra coisa não percebida, ou ao menos ignorada pela maioria é que por não ser religião, a Bruxaria, produz em todos os credos religiosos Bruxos, quer estes se denominem ou não assim, quer sejam ou não conscientes disso, e sendo como já disse, a Bruxaria uma herança dos Guardiões dos Céus a seus filhos, é certo que e estes se procuram, se encontram e se juntam aos seus semelhantes.

Ele então perguntou na lata: Se a Bruxaria não é religião, como saber e se reconhecer um Bruxo?

Respondi de bate pronto: a Bruxaria é uma herança, ela esta relacionada aos poderes e dons com os quais se nasce, portanto, que não se adquire ao se converter a uma religião ou se adentrando a um grupo que se denomine Bruxo. Bruxaria tem mais haver com poderes do que com culto a Divindades e Status Sacerdotais.

Deixa eu ver se entendi direito – disse e prosseguiu -  você está me dizendo que o Bruxo nasce Bruxo?

Significo quid sentio - falei abusando das poucas frases prontas de latim e continuei – No meu entender, ninguém se converte a Bruxaria para ser Bruxo, se nasce Bruxo, e o nascimento de um Bruxo é uma manifestação do sagrado. E é sempre cercado de augúrios e sinais, ele nasce com os dons trazidos dos céus, esta é sua herança sagrada, e na maioria das vezes vem ao mundo sob a coifa de Lilith e sempre  marcado com sinal de Caim.

Como assim Caim e Abel?  - Perguntou e sentenciou em seguida – É muito cristianismo, não acha?

Meu caro! – exclamei e sem titubear falei: É preciso que a maioria que se autodenominam Bruxos desenraize o cristianismo de sob a psique. Serei mais claro, muitos que criticam o fé da cristandade não tem só mapas enraizados os quais na horas de aflições buscam se segurar, mais que isso, eles têm brotos morais que surgem além do inconscientes e se manifestam em suas ações e opiniões. Muitos que se dizem guardiões de agregados culturais da antiga religião (qual?) das bruxas europeias, usam na maior cara de pau as coisas - erva para banhos e defumações, feitiços, e ebós - do solo tupiniquins em suas aulas e pseudos ensinos herdadas de suas avós-monomastequitomizadas celtas - como se fosse coisas vindas do velho continente (e  pior tem gente que paga por isso) – então o que precisam de fato é ao invés de perderem tempo em suas eternas guerras para querer provar  - ao modo dos fanáticos evangélicos que tanto criticam – que seguem a antiga (na verdade neo) religião pagã das bruxas e deixarem o mito bíblico de Caim e Abel para a cristandade, e, abrirem-se aos símbolos contidos (ou ao menos reconhecidos)  nesta mitologia pelos praticantes da Arte Sábia e do Caminho Tortuoso do Homem de Barro Vermelho (Abel) e do homem de Fogo e Luz (Qyann/Seth), se assim agirem um dia compreenderão a Bruxaria Tradicional muito além de um agregado do antigo paganismo Europeu.

Agora foi a vez dele abusar das frases prontas ao afirmar: Ego idem sentio ac tu  - e finalizou – de fato a compreenderão um dia como herança dada aos descendentes dos Nephlilins e quem sabe deixem de criticarem e denigrem Bruxos Tradicionais, Cainnitas e Luciferianos.

Completei dizendo: Oxalá, chegue o dia em que ao invés de dizerem amém a seus super poderosos e poderosas Sacerdotes e Sacerdotisas, procurem ler um pouco mais que os livros pseudos-sagrados-verdadeiros indicados por estes, ou no  mínimo, perca a vergonha ou medo de decepcioná-los e pergunte a um Qaynnita ou a um Luciferiano sobre suas práticas.

Perguntou ele: Em resumo?

Respondi: Ninguém se converte a Bruxaria, o fato de fazer parte de um grupo ou religião reconstrucionistas ou de pagar mensalidades por aulas, e receber ritos e símbolos de iniciação, não faz ninguém Bruxo, apenas lhe confere graus dentro do grupo ou religião, ou lhe faz Sacerdote ou Sacerdotisa daquilo grupo ou religião. O Bruxo nasce Bruxo, o Bruxo é Bruxo por possuir o Sangue Bruxo, quer se aceite ou não isso, então, ninguém se torna Bruxo por se converter a uma religião, quer seja essa conversão realizada através de uma cerimônia de iniciação pública ou privada, pois não há a tal religião de Bruxaria e nunca houve. Em palavras simples, não existe se escolher ser Bruxo, mas sim, se nasce Bruxo e o sangue bruxo guiará cada um para reencontrar os seus no aqui e agora neste mundo e no mundo além do véu. Por fim, afirmo sem medo de Receber pedradas, chamar de Sabá celebração sazonal ou os pontos dos quartos cruzados na roda é um equivoco. O verdadeiro sabá é quele-do-sonho-feito-carne e isto é mistério.

Quando achei que arrasei nas respostas ele me lança mais uma pergunta dizendo a ser a ultima por hoje - Me responda fora do sentido acadêmico e da definição dada pelo falecido Magister do Cultus Sabático Andrew Chumbley - facilmente encontrado na internet, o  quem é a bruxaria para você e o que você busca nela?

Sob a promessa de ser a pergunta final respondi: Bruxaria é o uso de poderes, ditos sobrenaturais – não para o Bruxo – para mudar a realidade toda ao redor, é a ressurgência e o uso consciente dos dons herdados atavicamente falando dos guardiões, para mudar as coisas, portanto, é uma forma de arte ou oficio trabalhado conscientemente.

Mas - ele falou - a quem discorde que a Bruxaria é Ofício ou Arte, e há quem diga, por ser ela isto, ela pode ser aprendida, como sair desta sinuca de bico?

Acontece – falei e dei continuidade - que ao se aplicar a palavra Oficio ou Arte a Bruxaria, é preciso entender que as palavras tem o sentido ou deve ser entendida como quem tem o dom natural, ou seja, de quem nasce geneticamente – com a marca  e o sangue Bruxo  – propenso a determinado Ofício.

Dei-me um exemplo pueril disso – Ele falo.

Certo, darei – e prossegui -  todos nós percebemos quando um ator ou atriz nasce propenso à arte de atuar, quer seja no palco ou na mídia ou quando são medíocres; Outro exemplo claro é todos nós conhecemos alguém que é bom em alguma coisa e que por mais que tentemos não conseguimos fazer aquilo que outro faz com a mesma facilidade, por fim, há ainda um exemplo final, quem de nós não conheceu na vida alguém que desenha perfeitamente sem nuca ter tomado um curso se quer na sua existência?  Ou seja, quem nunca presenciou alguém com dom natural a determinada coisa? 

Ela falou: deixe mais claro.

Continuei: nesta ultima linha de exemplo, posso ainda citar que muitos pintores famosos tiveram seus quadros perfeitamente copiados, mas que apenas um simples olhar de um especialista para verificar que a obra, por mais perfeita que aparente, é apenas uma cópia sem valor, o especialista é capaz de distinguir uma cópia do original, mesmo que o imitador use as formas, modos, linhas, cores e pinceladas idênticas ao do artistas, seu trabalho não será mais que imitação, então o que diferencia aos olhos do especialista em arte a cópia do original? 

Ele respondeu: O dom do pintor torna sua arte única.

Exato - disse e completei -  é isto que o diferencia do imitador, ou seja, existe no original sinais e características próprias e uma propensão para aquela arte e aquele oficio, já sobre quem fez a cópia fica evidente que não tinha o dom natural, não nasceu com aquele dom e por mais que tenha estudado sua arte será sempre imitação. Assim, em palavras simples, posso afirmar que nos sabemos diferenciar aqueles que nascem com o dom para Arte Sábia e os que tentam aprender ser.  

Ele levantou-se e antes de sair disse: em resumo, o Bruxo nasce Bruxo.

O Daimon do Diário falou: Adsumus. 

Finalizei o texto em seu corpo com “Alea jacta este”.

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.....Texto construído a partir da reflexão entre um Mestre e seu Pupilo, ele é uma mentira símeil aos fatos... “e dizer mentiras símeis aos fatos é furtá-los à luz, encobri-los. As mentiras são símeis aos fatos enquanto só os tornam manifestos como manifestação do que os encobre. Ele, revela assim, similitude que se oculta na verdade e na mentira no estreito caminho entre o cinismo e a ingenuidade”.....

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