O DIÁRIO DE AZAZEL – PÁGINAS 1737 – 1741
Boa Noite Diário...
Como assim finalmente reparei que você existe?
É impressão minha ou estou sentindo uma pequena dose de ressentimentos
entre nós?
Eu não te dou atenção?
Não fale assim, não tenha ciúmes de Rosa e nem dos Compadres, você sabe
que meu coração é grande e cabe todos, aliás, eles não têm de ciúmes de você,
mesmo sabendo que eu divido contigo as coisas santas e profanas de meu
cotidiano entediante aqui nas Terras Poluídas do Distrito Industrial...
Em fim, meu caro!!! desde que estou aqui tudo mudou para mim, mais isto
será tema de novos escritos nas linhas de teu corpo belo em tempos futuros,
agora quero lhe contar de uma visita que recebi nos estágios do
dormir-sonhar-acordado.
Eu havia tomando aquela bebida verde irmã da azul (e ainda não tomei a dos vampiros, a vermelho sangue – já sei trocadilho
sem graça!!!).
Realmente meu pequeno Magistellus, ela faz jus ao apelido:
Meu querido... Pare de reclamar de cócegas e preste atenção!!: ....
....Ele chegou sem
convite, como se dono da casa fosse, sentou-se no sofá, ajeitou-se, pegou
minha carteira de cigarros em cima do banquinho plástico verde oliva, retirou
um, acendeu e começou a fumar, soltando golfos de fumaça tóxica.
Após uns tragos, passou a ri
cinicamente, e, comentou – este sempre me
faz fazer horas extras..
Parou de repente,
levantou-se, atravessou o pequeno corredor chegou até cozinha onde fica a
geladeira branca, abriu a porta, puxou a gaveta embaixo do congelador e
pegou uma bebida, leu o nome na embalagem, elogiou a cor - verde é a minha cor predileta, apesar do senso popular achar que fico
melhor de preto – comentou: Spirit nome apropriado - bebeu um gole e voltou à sala trazendo consigo a
latinha gelada de bebida.
Sentou-se novamente no
sofá, pegou o controle remoto da tv e colocou no canal de noticias: Rompimento de Barragem em Mariana; ISIS
assume atentado em Paris; Imigrantes se afogam nas costas da Europa; Cinco
Jovens morrem em acidente ao voltarem de festa formatura; Traficante é morto em
confronto com a Policia; Mulher; criança são atingidas por balas perdidas.... as
noticias iam sendo debulhadas como um espiga de milho, Ele riu de novo e disse:
mais horas extras preciso pedir um aumento.
Eu continuei extático,
sem saber o que fazer, ele notando meu constrangimento, ficou sem jeito, quase
que ruborescido olhou-me com piedade e finalmente falou: desculpe minha falta de cerimônias, somos tão íntimos, te acompanho
desde o exato momento em que foste concebido no útero de tua mãe, que achei
que não precisaria pedir licença para entrar na sua casa, pois na sua vida,
estou presente, apesar de você fingir que não me nota – suas palavras foram
piores que sua entrada repentina, pois, ele mim, era estranhamente familiar,
mas, ao mesmo tempo completamente desconhecido.
Bebeu mais gole de
Spirit e disse - Deveria ter vindo a caráter, mas os estilistas dos estúdios não têm
bom gosto quando se trata de me vestirem, alias, capuz preto e foice na mão é
muito démodé, nem na idade média tais coisas cairiam bem em alguém. Meu nome é Oníkò[1].
Onde havia ouvido tal nome?
Porque sabia que o conhecia tão bem, e, ao mesmo tempo, que nada sabia
sobre ele?
– Pare - disse ele e continuou – Calma, existem elas também, aliás,
nos tempos modernos não é politicamente correto, dar um sexo, cor, ou inclinações
ao emissário de Ikú[2], pois pode ser tomado como intolerância e preconceito.
Nós os emissários, os Ceifadores não fazemos distinção alguma no nosso trabalho,
não nos importa as condições sociais, opções sexuais, os credos religiosos ou
as filosofias de vida, pra nós tanto faz se for branco, negro, amarelo ou
vermelho, macho, fêmea, ou hermafrodita, baixo, alto, magro, gordo, feto, criança,
adolescente, adulto, velho... Ceifamos a todos para que se cumprir o Odú[3].
Alias como você vive pregando que
Bruxaria é toponímica, usarei termos da
sua língua cultural ancestral no nosso papo, assim você toma vergonha na sua
cara e deixa essa síndrome de vira-lata nacional, essa mania de conhecer a
cultura, religião e corpus prático de feitiço de fora e não dá o devido valor
ao que está abaixo de seus pés.
Fiquei aterrorizado,
pelo que estava entendendo, aquela não era uma pessoa comum, ou melhor, não era
uma pessoa de jeito algum e era o Ceifador de Ikú e sua presença ali comigo só
podia significar uma coisa, e eu definitivamente não estava pronto para essa
coisa - como a maioria de nós nunca esta
e não se apercebeu que essa coisa esta sempre pronta para nós - Eu suava
frio, meus olhos quase que saltando das órbitas, meu coração acelerava, minhas
pernas tremiam, meus dentes rangiam, ele se divertia com isso, podia ver como
ele achava aquilo engraçado.
Balbuciei – é...a minha... !!!!!!- ele não me deixou terminar, colocou seu dedo
frio nos meus lábios e uma calma repentina se abateu sobre mim, um cheiro de
rosas amarelas impregnou todo o ambiente, sinal de que eu não estava sozinho - Rosa estava ali comigo - nesse encontro e disse-me: sente-se – obedeci.
Não sei quanto tempo
passou-se, ele ali em silencio me olhando já não mais com olhos de diversão,
mas com olhar de complacência e piedade.
De pronto respondi - Mas então você é o Ceifador de Ikú, e não deveria ser visto por ninguém vivo,
Ifá[6]
diz que somente aqueles que estão com seus dias contados no àiyé[7], pode senti-lo.
Ele viu minha ansiedade
e procurando uma forma de me acalmar – Em
um momento atemporal habitei Àiyé era um Bàbálawo[8],
trabalhei como assistente de Onípìpín Orun[9],
por isso sabia a hora que cada homem encerraria seu ciclo[10]
no Àiyé e por isso quando
cessou meus dias, recebi no Òrun[11]
a missão de ser um dos Ceifadores de Ikú,
eu não sou a Morte, sou apenas um mensageiro, um ceifador, um Coletor.
– Parou, pegou fôlego e continuou - Cada ser nasce com seu destino traçado por Olórun
e somente ele sabe a hora certa e o destino de cada um, eu apenas coleto as
almas para o Òrun, faço a intermediação e há muitos e muitas como eu, o nome e a
crença pode mudar, a cor da pele e os hábitos culturais podem ser diferentes,
mas a nossa missão é igual para todos sem distinção.
Pasmo
com a descoberta, não resistir à curiosidade e ele como bom e velho Bàbálawo, adivinhou minha próxima pergunta –
você quer saber o que é a morte?- e prosseguiu - Morte e Vida é um casal
e gera nascimento, morte
é o destino certo de tudo que é vivo, a morte deve ser vista como um processo
natural e inerente a tudo que é vivo, pois ela está ao nosso lado o tempo todo
e não se pode viver com medo da morte, mas também não se pode ignora-la, isso é
burrice, fingir que ela só passa nas casas alheias é tolice, achar que ela
nunca vem para nós é autoengano – tomou ultimo gole de
Spirit e prosseguiu - Preste atenção no seu dia, observe como você vive,
quase que inconscientemente evitando Morte, você passa o dia tentando se livrar
dela, quer um exemplo? Você atravessa a rua com cuidado, olhando para os lados,
pois se vacilar, ela vem e te pega na forma de atropelo... Morte é assim, ela espreita e pode te abraçar
de forma violenta ou simples, no sono ou na dor. Mas ela não faz isso por mal, isso
é sua natureza, ela apenas cumpre sua missão, Ikú é o Orixá que desce em toda
cabeça sem distinção, aprenda e compreenda que mais cedo ou mais tarde, morte
se deitará contigo.
Parou
de falar, acendeu outro cigarro e fumou como se eu não estivesse ali, depois
disse: Aliás, meu caro, você está em
débito comigo, lembra da flecha quente que atravessou o pé de F? – de súbito acendeu o sinal de alerta em mim – Pois
bem, três dia antes um èbo[12] foi arriado para encurta o Èmi dele (você já sabe quem
foi e o porque), e eu já estava pronto para tocá-lo e ceifá-lo para Òrun,
mas você interveio e seu Compadre desviou a seta quente, agora você está
em débito comigo.
Não sabia o que responder, então disse a primeira coisa que me surgiu a mente ...Mas ela estava destinado a “coçar os cabelos brancos[13]”, então não foi uma intervenção foi um retorno ao Destino... - Oníkó me olhou friamente e disse: como você tem tanta certeza, por acaso você é Babalawo de Ifá? – Engoli em seco, o que poderia dizer.
Não sabia o que responder, então disse a primeira coisa que me surgiu a mente ...Mas ela estava destinado a “coçar os cabelos brancos[13]”, então não foi uma intervenção foi um retorno ao Destino... - Oníkó me olhou friamente e disse: como você tem tanta certeza, por acaso você é Babalawo de Ifá? – Engoli em seco, o que poderia dizer.
Ele retornou a serenidade de antes, terminou o cigarro, suspirou e
arrematou: Odú de Ori é coisa que somente Olórun designa, cada ser humano
tem seu próprio Odú e, portanto seu Destino - Oníkó me
olhou profundamente nos olhos e perguntou:
Valeu apena sua intercessão? “
Fez
uma pausa e continuou - aprenda quando
se trás carne de elefante sobre a cabeça, não se deve vasculhar o buraco de um
grilo com o pé[14].
Ele me deu tempo suficiente
de absorver o impacto daquele ditado ioruba e prosseguiu - .
Tudo tem um preço a ser pago, minha viagem de Òrun até Àiyé não pode ser em vão...
Estendeu a mão pegou o controle
remoto desligou a tv e com ar sério prosseguiu - “Enia
lásán po ju igbe[16]”- O papo começava a ficar pesado, o clima começava a
mudar, eu sentia uma áurea sombria se abatendo sobre o local, Oníkó
percebeu e retomou as rédeas da conversa e largou - “Àiyé Atí Ikú Okan Náa Ni[17]".
Ficamos em silencio
alguns segundos que pareciam intermináveis – finalmente ele diz: Você pode
trazer outra Spirit? – confesso que sua cerimônia dessa fez teve o efeito
devastador, pois a meu ver, quebrava de vez o que restava do clima de
cordialidade que ele havia estabelecido - eu aluno e ele professor – fui
num pé e voltei noutro, ofereci uma das latinhas – havia pegado duas –
abrimos quase que ao mesmo tempo e instintivamente ambos fomos com as mãos
em direção à carteira de cigarros, a coisa foi tão automática que explodimos em
risadas daquela situação. Fumamos, bebemos, em silencio, ambos com cara de
paisagem.
Oníkó disse então: Não se preocupe, não vim lhe cobrar, pelo menos agora, irei acumular
muitas milhas no seu ebócard, pois lhe conheço tão bem, que sei que você fará
outras vezes uso dele, mas lhe adianto logo, aprenda: quem é, de onde veio,
qual a sua origem, qual o seu destino.
Ele soltou um suspiro,
depois dois e três, e para finalizar sentenciou – Você nunca se perguntou por
que no merindilogun[18] sai muito Eguns[19] no seu Caminho? já estou cansado desta rotina... Quem
me deve paga, para bom entendedor meia palavra basta.....”Elejo
kì ímo ejo ro l'ebi k'ó pe lorí ìkúnle[20].
.... acordei no meu
quarto sobressaltado, tinha sido apenas um sonho...
Meu pequeno Lobo ainda estava
ali ao meu lado, acariciei sua pele canela, rocei meus lábios levemente em sua
testa e vi que dormiu o sono dos justo...
levantei, fui até a
sala, acendi a luz, peguei um cigarro, e
para minha surpresa, haviam cinco latinhas vazias de Spirit sobre o banquinho
plástico e conclui..
.......A outra ver
bicho, essa porra vê é espirito mesmos...
...............................................ALEA
JACTA EST......
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Dedicado a Duncan, que com sua simplicidade, sobre remexer a brasa quase
extinta debaixo da camada de cinzas de meu coração... Bênçãos e Maldições no
X.... Asè ò...
[1] Ikú Oníkó é um servente de Olórun, sendo
criado para trazer de volta à alma do viajante a cidade do céu”.
[2] Ikú palavra da língua
yoruba que significa morte, identificado no jogo do merindilogun pelo odu owarin. É o único Orixá que incorpora em toda cabeça humana. Foi permitido e
abençoado por Olodumare a conduzir o ciclo da criação. Designado a vir todos
os dias ao Aiye escolher
homens e mulheres a ser reconduzidos ao Orum, retirando o emi (sopro
da vida), condição imposta para a renovação da existência. Sua celebração no
ritual do Axexê comemora a volta do homem ao todo primordial,
reafirmando o grande mistério e possibilitando outras vidas. Os vestes brancos
neste ritual simboliza a verdade absoluta, morte e vida. kú é
conhecido também como Oba Ajogun (Rei dos
Ajogun) e sua esposa é chamada de Àrùn (doença).
[3] Odu é
um conceito do Culto de Ifá, mas também usado no candomblé, interpretado no merindilogun,
na caída de búzios. A palavra Odú vem da língua Yoruba e
significa destino. Cada Homem (Ser) possui o seu destino, hora com
passagem que se assemelham a de outros, mas sempre com alguma particularidade.
Isso é melhor compreendido com o estudo do Odú, pois odu é o destino de cada um.
[5] Orun, num sentido geral, significa Céu, o
lugar onde Olodumaré, os Orisás e os espíritos diversos habitam. A denominação
de todos esses habitantes do Òrun é Ara Òrun, cuja principal diferença entre
eles e os araàiyé (habitantes da terra) é a de que aqueles não necessitam do
èmí, a respiração, para sobreviver, no dizer de J. E dos Santos – “o òrun é
todo espaço abstrato paralelo ao aiyé”. Outros alegam que o Òrun é muito longe,
sendo por isso que o recém-morto tem que adquirir energia, consumido a comida e
a bebida oferecidas durante a s cerimônias fúnebres, antes da ida para a longa
viagem. O Òrun é dividido em noves Céus de acordo com a evolução de cada
pessoa. Orun Alàáfià. Espaço de muita paz e tranquilidade,
reservado para pessoas de gênio brando, ou índole pacífica, bondosa, pacata. Orun
Funfun. Reservado para os inocentes, sinceros, que tenha pureza de sentimento,
pureza de intenções. Orun Bàbá Eni. Reservado para os grandes
sacerdotes e sacerdotisas, Babalorixás, yalorixás, Ogans, Ekedes, etc. Orun
Aféfé. Local de oportunidades e correção para os espíritos,
possibilidades de reencarnação, volta ao Aiye. Orun Ìsòlú ou Àsàlú. Local
de julgamento por Olodumare para decidir qual dos respectivos oruns o espírito
será dirigido. Orun Àpáàdì. Reservado para os espíritos impossíveis
de ser reparados. Orun Rere. Espaço reservado para aqueles que
foram bons durante a vida. Orun Burúkú. Espaço ruim, ibonan
"quente como pimenta", reservado para as pessoas más. Orun Mare. Espaço
para aqueles que permanecem, tem autoridade absoluta sobre tudo o que há no céu
e na terra e são incomparáveis e absolutamente perfeitos, os supremos em
qualidades e feitos, reservado à Olodumare, olorun e todos os
orixás e divinizados. Alguns dos òrun relacionados se equivalem pela finalidade
que possuem. O Òrun para onde iremos após a morte é baseado nos atos
praticados na terra e devidamente registrados no orí inú, que
retorna para Olódùmarè.
[6] Ifá (em yoruba: Ifá) é o nome de um oráculo africano. É um sistema divinatório que se originou na África Ocidental entre os yorubás, na Nigéria. É também designado por Fa entre os Fons e Afa entre os Ewés. Não é propriamente uma divindade
(orixá), é o porta-voz de Orunmilá e dos outros orixás. Orunmilá, muitas
vezes é designado como Orixá do destino na cultura africana Yorubá..
[7] Àiyé
é o mundo fisico. Segundo Ifá Órun (céu) ou outro-mundo é nossa origem, de onde
partimos em viajem ao mundo (Àiyé) e dependendo de nossas ações, poderemos
regressar ao Orun para podermos
ser lembrados, e após retornarmos ao Àiyé, isso tudo julgado aos pés de Olorun.
[8] Babalawo (em yoruba: bàbáláwo pronúncia babalauo) significa "pai ou
senhor dos segredos ou pai, no
conhecimento das coisas materiais e espirituais” é o nome dado aos sacerdotes
exclusivos de Orunmilá-Ifá do Culto de Ifá na religião
yoruba, das culturas Jeje e Nagô. Estes não necessariamente entram em transe, sua função principal é a iniciação de outros babalawos, a preservação
do segredo e transmissão do conhecimento do Culto de Ifá para os iniciados.
[9] Onípìpín Orun é quem mantém o registro do
instante em que as pessoas devem regressar ao Òrun, informando a Ikú, que deve
ir ao Áiyé e trazer o viajante de volta.
[10] Toda
religião encara isto: Nascimento, Vida e Morte (Ìbí, Ìyé, Àti Ikú), o Pós-Vida
(Iyè Lébìn Kú), o Julgamento Divino (Ìdájó ti Olórun) e o possível retorno em
outra vida, sucessivamente (Àtúnwa).
[11] Orun, o céu e
também conhecido como “além” é o nosso lugar de origem e onde devemos
regressar, ao contrário do pensamento cristão que o céu é o melhor lugar,
dentro da nossa cultura Yorùbá, a melhor coisa é estar vivo, portanto
o Àiyé (terra) é o
melhor lugar para vivermos. Nossa cultura é totalmente baseada na
reencarnação. O fato dos humanos poderem escolher o seu destino não se
limita em saber quando de seu regresso a seu criador, ou seja, a o seu local de
origem.
[13]
Ditado popular que quer dizer viver muitos anos até a velhice.
[14]
Ditado Popular Ioruba que significa: Não se deve arriscar a perder algo
importante para algo que não é.
[15] Bondade
é o pai do sacrifício.
[16] As pessoas más são
comuns como os arbustos.
[17] Vida
e morte: Ambas são Idênticas.
[18] Caída
dos búzios no Jogo de Ifá.
[19] Os
mortos, as almas dos mortos.