segunda-feira, 20 de junho de 2011

O FOSSO DA MORTE - Uma Viagem pelos Portais da Hipnogogya.

                               Por: Azazel Semjaza Qayinn Lvnae

Estávamos na primeira semana de junho de 2011, por volta das 23h30min, estávamos nós prestes a ir dormir e como sempre, fazemos nossas devocionais sobre nosso altar pessoal antes no sono.

Como estávamos muito cansados pois havíamos saído de uma jornada de 24 horas ininterrupta de trabalho (sem dormir), resolvemos por realizar uma devocional mais simplificada, apenas para não passar em branco.

Assim, acendemos três velas diante dos ícones de São Pedro, São Jorge e de Nossa Senhora Rainha dos Céus[1] e alguns incensos de sândalo em vareta, também acendemos uma vela junto a um copo d’água para nosso Mestre e Guia [2]...

Então, fizemos nossas preces e devoções... Porém quase mecanicamente cantamos nosso encantamento do sonho acordado:


"...Zazas, Zazas, Zazas, Nasatanadas... Meu Sagrado São Jorge, Príncipe deste Mundo... Máscara do mestre Qayinn, Meu Dhulqarnen, Mestre do Sabbat, Seja Tu Santo ou Diabo, vem a mim... Abra-me os portais da Hipnogogya para que eu posso ver dentro e além do véu de Lililya pois eu sou nascido e marcado com a coifa dela... Ensina-me o arcanum da Via Norturna, Ensina-me o mistério do Ungüentis diaboli... E o segredo do Vinum Sabbati eu bebo... A Chave que abre a porta do reino dos Sonhos eu abro... Montado sobre o Cavalo de um ano e um dia...Tua lança, raio da iniciação que toca a terra, prego que nunca esfria...alcança o centro do coração do Dragão... E eu trazido pelo corpo da Daemon pousado no ponto central da Encruzilhada... Parto, para além da aparência do dogma... Eu... voando comungar com o povo pálido nos Campos Josafá[3] estou...Ouça minha oração: Nunc Scio Tenebris Lux... Zazas, Zazas, Zazas, Nasatanadas, Zazas..."

Ao deitar-nos, como é normal, deixamos nossa mente saltar como as rãs entre os vários níveis conscientes, mergulhamos nos reinos da hipnogogya e chegamos a um ponto onde a realidade aparente das coisas mudam[4]... E com foco, aqui e agora, cantamos o velho feitiço de mudar de forma[5] por várias e várias vezes...

“...Urubu, Urubu, Urubu... No corpo de um urubu vou entrar, com bastante suspiros e muito trabalho... Em nome do Diabo eu vou... E quando voltar para minha casa, retornarei para forma humana de meu corpo de forma tranqüila e calma... Zazas, Zazas, Zazas Nasatanadas, Zazas...”
Mas aqui consiste uma diferença em nossas práticas cotidianas, todas as vezes que cantávamos o feitiço de mudar de forma éramos auxiliados pelo som da “Trombeta dos Anjos ou pelas Mãos da Deusa Mãe de Todos Nós..." E dessa vez o fizemos sem nenhum auxiliar para voar, não sabemos se por sintonia ou saturação de forças auxiliadoras provenientes de anteriores beijos no sapo[6] ou se por mero capricho de Destino, mas o que ocorreu ali para nós foi algo surpreendente, pois formigamentos tomaram todo o nosso corpo, um zumbido infernal invadiu nossos tímpanos, nossa temperatura corporal baixou tremendamente e fomos dolorosamente[7] mudando de forma até chegarmos a um ponto que estávamos na forma de Urubu... Na forma de totem[8], voamos... Voamos... até o cemitério na nossa cidade natal... Sim era ele, o velho Cemitério São Jorge[9], ele estava as escuras, não víamos a lua e nem as estrelas...
Podíamos ver os fundos da capela do Cemitério...
Sobrevoávamos sobre os fundos do cemitério e lá havia um buraco redondo e fundo, uma espécie de grande fosso onde eram jogados, depois de certo tempo, os restos mortais, dos que ali eram enterrados em covas rasas, isso era feito para dar lugar aos novos defuntos[10]...
Então, quase que derrepente pousamos sobre o fosso, ele estava repleto de ossos... Uma força incomensurável nos moveu a cutucar com o bico a procura de restos de carne humana podre para comer... Era algo incontrolável, o instinto do Urubu estava a nos sobrepujar... Entramos em briga com ele, pois era repulsivo à nossa mente racional aquilo que fazia o corpo que nos servia de veiculo licantropico.
Nessa luta titânica entre ânsia de vômito e desejo de comer, desesperadamente, voltamos à forma humana ali mesmo sobre o fosso, e, fomos afundando entre restos humanos recobertos de carnes podres cheia de vermes e corpos semi-decopostos faltando pedaços...
Aqueles restos e ossos nos seguravam pelo pé, nos puxando cada vez mais para baixo, gritavam que tinham recados, que queria dá noticias para parentes, outros queriam vinganças, outros ainda choravam e se lamentavam, todos ao mesmo tempo, deixando a nossa mente em confusão, essa mistura de sons ensurdecedores atordoava todo nosso ser...
Eram muitas vozes, de dentro e de fora do fosso... De todos os cantos do cemitério os mortos gritavam, choravam, esbravejavam... Eram muitas vozes, mais muitas mesmo, falando,gritando, chorando, pedindo ajuda...
Naquele instante compreendemos então que aquilo era de fato “o verdadeiro inferno”, não o inferno de fogo e enxofre da cristandade e outros credos... Aquele era o inferno real, o inferno de mortos conscientes e inconscientes do próprio estado em que estavam...
Aquilo era um caos dantesco, digno dos melhores filmes de terror de Hollywood, não temos como descrever o que víamos, vivíamos e ouvíamos, e muito menos o medo, o pavor e o desespero que nos encontrávamos, qualquer tentativa nossa aqui nem de perto arranha o que foi aqueles momentos no inferno...
Nossas únicas sensações eram desespero e pavor... pois cada vez mais éramos puxados para baixo, para o fundo do fosso, onde víamos um poço de sangue escuro e podre, exalando um odor da podridão terrível... Víamos sombras e seres demoníacos a nos espreitar entre ossos e cadáveres putrefados... Não, não dá para descrevermos o desespero de se estarmos mergulhado nesse inferno de restos mortais humanos e pútridos, carcomidos de vermes, com crânios expondo restos de cabelos, fêmures deixando carnes e nervos à mostra, dedos que se moviam sozinhos, troncos que deixavam ver intestinos que defecavam... Não temos como descrever de fato esse inferno de excrementos, urina, sangue, salmoura, olhos, pernas e odores infernais... Achávamos que estávamos literalmente mortos... Pois não víamos outra explicação...
Não sabemos por que, mas nesse momento nos lembramos de uma parte do “Vox Sabbatum” do Michael W. Ford que diz:
“...À medida que você crescer... Você vai entender porque, neste momento os demônios da terra e ar são chamados Legião... Comece a visualizar a mudança dentro si, o que se pretende atingir e por que. Comece a pensar e meditar sobre a forma como você vai conseguir, focalize sobre fraquezas transformando-se em força e modos para melhorar o ego. Não sobrecarregue o seu ego, tenha um foco forte e observe a vida interior por si mesmo adequadamente. Você pode notar visitações de outras Sombras Luciferianas ou Demônios, os escute e comunique-se com eles; você vai aprender alguma coisa com eles, que podem ser aplicadas mais tarde por você.!... Saiba que estas formas vivem através de você, em sua psique e se manifestam através de seu corpo físico. É essencial para iniciar um ciclo forte para desenvolver e explorar sua consciência, somente desafiando e fortalecendo sua mente é que você começará a ser algo divino...”
Podíamos ouvir em nosso próprio idioma essas palavras sendo recitadas, e então apesar dos gritos dos mortos, desejando falar, desejando dar recados ou mandar noticias (e dentre eles reconheci alguns que conheci em vida), apesar dos vermes, das sombras desarmônicas e que voavam, ora por cima, ora por dentro, ora por baixo do fosso, mantemos a mente no foco e perguntávamos para as mesmas (sombras ou demônios): O que devemos e podemos aprender com isso?
Então, de dentro do fosso, do meio dos ossos, eu vir meu Mestre, sim era ele, envolto num halo de luz branca, lá estava ele vestido de branco (terno, calça e sapato) gravata vermelha, flor vermelha na lapela[11], chapéu (tipo panamá) ele tocava uma sanfona[12]. Ele começou a tocar, parou e abaixou sua mão e me retirou do poço e disse:
“...Vocês não falam tanto da morte? Sua Arte não diz que vocês devem viver a morte em vida, e fazer os mortos na morte viver a vida através de vocês? Falar de morte de forma virtual é fácil, falar de morte em ritos dentro de um risco redondo no chão é fácil, chamar os antepassados virtualmente é fácil...Está com eles realmente é outra história né? Filho, quando se encara a morte cara a cara, a realidade é outra... Quando se sabe do sofrimento e da dor dos que amamos é que verdadeiramente nos interessamos em trazê-los de volta a vida pelas Artes proibidas... A Fé é diferente da prática... Há vida ainda presa aos ossos e há restos de corpos apegada a vida, apegos é ruim, aprenda porque eles são chamados de Legião...”
Não tivemos tempo de mais nada, estávamos já de volta a nossa cama, tremendo e sentindo o mau cheiro, sentindo o visgo do líquido de carne pútrida e o passeio dos vermes pelo nosso corpo, tremíamos paralisados pior que vara verde, o frio infernal da morte nos abraçava, algumas sombras espectrais ainda pairavam na escuridão do quarto... Gralhando e rindo sarcasticamente de nós... Francisco, ali em pé ao meu lado, tocando sua sanfona, foi o único alento de paz nessa noite...
Essa experiência nos fez acordar de fato para a realidade da morte, para a necessidade dos ritos aos antepassados e aos mortos queridos, nos fez pensar verdadeiramente na nossa própria morte e nos preparativos que devemos fazer para que não caíamos nós na cilada do apego e do dogma da fé enraizada.
Hoje em dia ao passearmos pela necrópole e ficamos a olhar os túmulos, e vez ou outra sentidos ou vemos alguma alma sofrendo apegada a vida que não lhe pertence mais, tendo seus restos mortais devorados pelos vermes... e perturbadas por sombras demoníacas... Às vezes sentimos o hálito frio da morte por detrás da nuca... Acreditem não conseguimos olhar mais um cemitério como um portal virtual para o além, mais como um portal literal para a realidade por detrás da aparência...
Talvez você diga:
“...Isso foi apenas um simples sonhos cheios de símbolos...”
Talvez outro dirá lhe contrariando:
“Não, isso foi uma viagem para além da realidade do que é visto...”
Para nós o mérito da razão é pessoal e inerente a cada ser... Cada qual com sua verdade... Quanto a nós basta que nos lembremos que Destino “Faz novas todas as Coisas”
Mais porque resistimos tanto?
Amém.
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[1] Como já foi explicado em outras partes desse Blogger, quando nos referíamos a Iconostasys (Iconoclastia) e o uso de ícones (heresia) da Fé dominante, São Pedro, São Jorge e Nossa Senhora Rainha do Céus, são respectivamente as máscaras do Diabo, de Caim e da Rainha de Elphame (a Deusa chamada Destino).
[2] Meu Mestre e Guia dentro da Ciência Sagrada do Catimbó de Jurema de Chão.
[3] Para nós uma das Cidades ou reinos da Jurema.
[4] Ao ecstasy.
[5] Desenvolvido por Isobel Gowdie, a Bruxa da Escócia, em 1662, mas ao qual fizemos nossas próprias adaptações.
[6] Ad signum homagii eum in podicem osculantur.
[7] Descrever esse processo é impossível, ainda hoje tenho duvidas se realmente ocorre a metamorfose ou adequação de minha alma a forma escolhida..
[8] O Urubu é nosso Formulus ou Daemon e é um dos veículos licantropicos do salto entre as realidades, os outros sao: A coruja e o Lobo (ou Lobisomem), o gato e morcego (vampiro)... Mas até que ponto isso foi sono sem sonho e sonho acordado?
[9] Mera coincidência o cemitério ser chamado de São Jorge que é máscara de Qayinn para nós?
[10] Não sei se ainda hoje esse fosse é usado, mas na adolescencia lembro-me bem dele e de um de fato que aconteceu: como ele era proximo ao muro, certa noite, quando um bando de garatos e dentre eles eu, brincavam próximo ao muro, vimos subir do fosso e postar-se flutuando (e outras arrastando-se) sobre o muro, formas humanas iluminadas, esbranquiçadas e fluídicas, a nos chamar..Essa foi a última vez que qualquer um de nós brincamos por lá..
[11] Parecia-me ser um cravo vermelho, mais era em realidade outra flor que já identificamos.
[12] Mais tarde soubemos por ele que era um acordeom.

8 comentários:

Nion disse...

Pela minha perspectiva, esta foi uma viagem ao Abismo, a parte mais profunda (não em sentido geográfico de altitude, mas de densidade) do Outro Mundo onde vivem as larvas e todos os espíritos e seres mais atormentados da "fauna espiritual".

De maior consideração foi o ensinamento e chamado do seu Mestre sobre "falar sobre a morte virtualmente" e hoje me indago como, por exemplo, podemos falar sobre sacrifícios e deuses sacrificados se nossa carne vem embalada e nem de perto ouvimos os gemidos dos animais que já não são sacrificados ou abatidos, mas, simplesmente "processados". Como falarmos em ritos agrários se todos os nossos grãos vem em pacotes e sequer chegamos a ver e tocar o broto?

...mas ver, não é a mesma coisa que acreditar. Estes portais mistéricos que vocês ultrapassaram são verdadeiramente apenas para os fortes ou para os loucos...

rodrigo disse...

Irmão realmente, eu fico no meio como distiguir como um sonho ?, eu não sei para o lado da realidade muita ilusão,poderia desmembrar estes simbolos para sabemos o que é neste mundo.

Azezel Semjaza Lvnae disse...

Rodrigo...

Pessoalmente falamos mais sobre os processos de saltar entre os mundos, mais lembre-se que usamos sempre as forças da Deusa Mãe de Todos...

Azezel Semjaza Lvnae disse...

Irmão..Nion..
Honra-me seu comentário aqui...
Bem como, emociona-me ver que existem mais pessoas questionando a si mesmos e a natureza ao redor sobre a vivência dos mistérios...Sim, acredito que somos loucos...e nossa loucura nos leva para além do que é visto..obrigado...mais uma vez...

by Jaiadeva Seus disse...

Bom texto, otima experiencia, mostra a real importancia da morte nos processos iniciaticos pessoais, frente a pusilamine "face" da morte difundida no meio esoterico.

Sátirus Pã disse...

Incrível relato irmão.

Consigo imaginar de fato esses acontecimentos da mesma forma que descreveste.

lukiansantiago disse...

Olá Corvos!

A experiência descreve uma transformação. A descida a reinos inferiores(incosciente), é como um meio de se transformar. É um verdadeiro "saltar de uma rã, do icosnciente, (para deixar as vestes velhas); para o Consciente(para encontrar o novo). Um experiência em nossa psique.

Mia Lopes disse...

É inacreditável, mas ao terminar a leitura notei que eu estava para, com frio e com respiração ofegando.
Além da experiencia a capacidade de transmitir a experiência é perfeita.
Que bela reflexão a de Francisco...é fácil cultiva os mortos do lado de cá, difícil é atravessar o rio.
Ótima experiência!