sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

ALEA JACTA EST - PARTE II

(Para compreender o texto leia a Parte I aqui)

O DIÁRIO DE AZAZEL – PÁGINAS 1602 - 1605

"...Ter feito algo imortal pode levar à perdição (por isso) É necessário levar em si mesmo um caos, para pôr no mundo uma estrela dançante (e assim compreender (que) Eu não sou um homem, sou um campo de batalha (e que) no amor sempre há algo de loucura, mas na loucura sempre há algo de razão... (e) o que se faz por amor sempre acontece para além do bem e do mau....” [1]                                             
Nietzsche
I
Após ver pela janela atemporal Shamad liderando a dança da caçada contra nós ...
Sabia que o quarto prego foi esquentado...
Lembrei-me dos tempos das fugas das Aldeias e só tive tempo de lançar um feitiço para proteger minhas crianças geradas nas terras do Visconde...
Sem outra opção acordei a minha cria e partimos com o Mordomo e Uriel - cujo odor me causa tantas náuseas quanto e de um rato morto – pensei comigo, enquanto atravessamos o Portal aberto pelo Mordomo no lado Norte: “..Ele ganhou essa batalha...Mais a guerra estava só recomeçando....”
Enquanto atravessávamos, ainda olhei para trás e pude ver homens armados invadirem minha casa, eram os chefes das gangues da área e seus asseclas - que sobre os efeitos do encanto de submissão escrava – estavam sendo controlados por Lobos desgarrados, e estes últimos por Shamad – meus olhos vermelho como sangue e os olhos amarelos como ouro de Shamad, se cruzarem – e pronunciei para ele ouvir sentença: ...Alea Jacta Est”.... Puder sentir todo seu ódio e decepção com a minha retirada, e nesta hora sentir um gostinho de vingança no meio de toda aquela desgraça.
Saímos em algum ponto bem na fronteira entre as terras do Visconde e as Terras do Mar – andamos por cerca de 10 minutos, o Mordomo parou e colocando a mão na testa de minha cria-humana, lançou um encanto a fim de que lhe fosse apagada as lembranças do portal e de Uriel, soprou em seu ouvido uma história sobre nossa fuga antecipada ter sido devido a violência que havia tomando conta dos Terras do Visconde... e assim ficaram ocultos à vista dela. 
II
Andamos mais alguns minutos, em carro branco nos esperava com três homens armados, um deles, que parecia o Líder, perguntou ao Mordomo se a coisa estava muito séria, este ultimo assentiu com a cabeça que sim, afastaram-se e falaram por cerca de 5 minutos.
Em seguida o Mordomo disse – antes de se retirar com Uriel – “Logo providenciarei as novas acomodações”.
E nos deixou a mim e minha cria humana, sobre os cuidados dos homens – Eu já os conhecia, mas jamais havia percebido neles odores de morcegos ou lobos e nunca suspeitei que soubessem das coisas que somente quem sorve do vinho-tinto-sangue no  Crânio de Abel  pode ter cesso –  como poderia ele nos deixar tão próximo das terras do Visconde das Torres e dizer que ali estávamos seguros (por enquanto)?...Não havia outra escolha... cedi e fui com eles até a base que mantinha...
Na base vários grupos de homens e mulheres comentavam sobre a violência nas terras do Visconde, todos fortemente armados, esperando a ordem para colocar fim aquela violência das gangues, o próprio Visconde - um senhor alto, loiro e de olhos azulados, bonachão, era uma antítese de sua linhagem de homens guerreiros e afiadores do Pacto entre as Raças, eu tinha leve desconfiança que ele era apenas um humano, demasiadamente humano, como diria Nietzsche – Estava lá, havia fugido de suas terras e do castelo, deixando sua gente a mercê da sorte.
O tempo passava, e eu no meu canto, me corria de ódio, porém, ainda temeroso, pois o quarto prego da cruz tinha sido aquecido – amaldiçoe, secretamente naquela hora,  minha descendência – o vermelho sangue dos meus olhos ainda era visível, e não fazia questão de esconder todo ódio que sentia contra Shamed e os degenerados.
Minha cria humana aproximou-se ainda tremendo e comentou que sabia que o motivo de nossa fuga foi devido aos bandidos terem tomando as ruas da cidade - o encanto do Mordomo havia funcionado e de fato eu e poucos ali, sabíamos que se trata de algo muito maior – apenas acabei concordando ela, com movimentos de cabeça - pois minha voz se negava a sair da garganta e também, não estava a fim de ter que dar explicação sobre algo que um filho de raça de Abel jamais compreenderia.
Eu queria lutar, mas fui contido pelo Líder daqueles homens, pois segundo ele a ordem de minha fuga das terras do Visconde tinha sido dadas pelo próprio Dhulqarnen.... e minha segurança era a prioridade. Vir, a saber, alguns dias depois, que o líder daqueles homens  tinha a alcunha Panda - devido a ser baixo e gordo e conter olheiras quase que negras ao redor dos olhos, o que fazia lembra aqueles fofos ursos chineses -  era descendente direto da segunda raça, mas jamais havia manifestado qualquer sinal de atavismo[2] dela.
Em fim partiram e a batalha entre humanos havia sido vencida por nós, as gangues fugiram e nenhum dos nossos havia sido ferido. A paz temporária havia voltado, e a ordem, pelo menos por alguns dias havia sido restabelecida.
III
Cerca de duas horas após termos chegado àquela base, um carro cor de vinho e vidro fumê 100% aproximou-se, reconheci de imediato que se tratava de Elza, que sem muita conversa, nos fez entrar em seu carro e nos levou para sua casa, onde passamos a noite. No dia seguinte, meu celular toca e ao atender, reconheço a voz de Cláudio, que dizia que havia recebido o recado da “Ordem” a qual pertencia, para ajudar no que for preciso, disponibilizando dinheiro para alugarmos uma casa, com a instrução direta que fosse no Distrito Industrial, pois assim, estaríamos seguros e haveria quem nos protegesse e que jamais deveríamos voltar as terras do Visconde, a não ser para buscamos nossos móveis e outros objetos – o que foi feito nos dias seguintes, sempre com a proteção dos homens e mulheres da base, que se faziam reconhecer pelos uniformes que usavam  - e nem mesmo as gangues se atrevia a enfrentá-los, pela fama de ferocidade que tinham
Cumpri como uma ovelha todas as recomendações que Claudio havia passado e logo estávamos instalados nunca casa, bem mais segura e ampla, na parte Leste dentro do Distrito Industrial.
Arrumaram-nos novos empregos, novas identidades. A vida corria tranqüila no Distrito Industrial, mesmo estando na fronteira entre as Terras do mar e as terras do Visconde, ali a paz entre as raças era assegurada a qualquer preço, pois, o que estava em jogo era a própria economia do distrito, sua sobrevivência, seu PIB era o maior da região toda e a riqueza e opulência dos Senhores dali que não desejavam perder suas regalias e nem chamar atenção do mundo, fazia com que fosse assegurado não só um pacto de sangue entre as raças e as ordens, mas também um pacto político – em fim pude perceber a extensão real da coisa, pois apesar da família do Visconde no passado ter sido fiadora do antigo Pacto de Sangue, sua decadência atual, o deixou de fora do Pacto Político e Financeiro.
IV
Três meses haviam se passado, muitos das gangues e desgarrados tinha sido mortos - Shamed tinha sido capturado pelos Caçadores dos Anciões e levado a julgamento, novamente degredado, desta vez não para as terras do Purgatório, mas, para os Hades, não que isso impediria nova fuga dele, mas nos daria bastante tempo para recompor nossas forças - e os remanescentes fugiram, por fim, soube depois que um Pacto novo havia sido selado entre o Visconde e o Barão das Torres Brancas - um dos degenerados – este ultimo, administraria as terras do Visconde (como se fosse um primeiro ministro), mantendo a população segura e se houvesse qualquer descumprimento os homens e mulheres da Base seriam acionados (fato que ocorreram raras vezes).
Mesmo vivendo modesta, mas, confortavelmente no Distrito Industrial – apesar da poluição e da contaminação do solo – Ele tem um ar estranho, um que de mistério, até mesmo os degenerados, buscam viver de acordo com a lei do Distrito, não há tolerância para qualquer desvio, e todas as tentativas disso, acaba sempre nas páginas policiais de jornais e sites – como um aviso – Neste Distrito, manter a economia e opulência vale mais que manter o sangue - Absque argento omnia vana[3] - e em nome da segurança e manutenção da sobrevivência do Distrito, as Raças e as Ordens, não poupam nem mesmo seu próprio sangue. Portanto, fui aconselhado – e seguir piamente – a manter minhas práticas, no mais absoluto segredo, mascarando-a com algo mais aceitável pela sociedade local – Abundans cautela non nocet[4]
Quando preciso por motivos pessoais evocar o cântico de metamorfose no sonho-feito-carne, e adentro pelo atalho de Areruza, ouço murmúrios em latim vindos das profundezas do Hades: Memento Mori et Carpe Diem[5],  respondo ainda  na forma de uma Coruja:  Ab auditione mala non timebit...Alea iacta est[6]. Mas por via das duvidas nunca esqueço que: Jam tua res agitur, paries cum proximus ardet[7]

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P.S:  O texto é composto de mentiras símeis aos fatos... “e dizer mentiras símeis aos fatos é furtá-los à luz, encobrí-los. As mentiras são símeis aos fatos enquanto só os tornam manifestos como manifestação do que os encombre "  ele, revela assim, similitude que se oculta na verdade e na mentira no estreito caminho entre o cinismo e a ingenuidade.....
  


[1] Complemento entre parêntesis: Jayhr Gael Lvnae;
[2]Atavismo (do latim atavus, "ancestral") é o reaparecimento de uma certa característica no organismo depois de várias gerações de ausência. Decorre da não expressão de um gene em uma ou mais gerações de indivíduos. O termo é usado correntemente para referir-se a semelhanças físicas e/ou psicológicas entre seres e seus ancestrais mais distantes. Culturalmente, usa-se o termo para fazer referência à recuperação de atitudes ou tradições ancestrais que teriam permanecido latentes durante longo período;
[3] Sem dinheiro, tudo é vão;
[4] Cautela em excesso não faz mal a ninguém;
[5] Lembra-te que és mortal e aproveite o momento;
[6] O homem honrado não teme murmúrios, a sorte está lançada;
[7] Quem vê a barba do vizinho arder, bota a sua de molho.

Um comentário:

Rafael Lupus disse...

Eu, um peregrino que uiva para a lua, agradeço por esta dose de ígneo-vinho-cobre. Quem tem olhos que veja os alfarrábios de um Lobo e saiba ver a iconoclastia no âmago de sua essência. Que a antinomia seja nosso Norte e que nosso pai, o Lobo em pele de Cordeiro ou o Bode entre as ovelhas conduza sempre suas palavras, que mais são como um martelo na forja a qual está nossa alma-lâmina, à espera do choque que nos leva à uma segunda realidade (ou primeira).

Os limites entre sonho e realidade são muito sutis e ao mesmo tempo muito complexos. Assim como os limites entre a sociedade - e com ela nossa máscara - e aquilo que realmente somos em nossa tribo. Desta forma, vistamos a máscara e dancemos conforme a música toca, mas saibamos diferenciar o que é a máscara e o que é "eu".

Poucos são aqueles que estão dispostos a aguentar as marteladas da forja de nossa lâmina. Muitos preferem arrebanhar-se entre as ovelhas e ouvir o pastor que as guia. A liberdade transfiguratória do ser é uma ordália, que primeiramente se apresenta como uma bênção, mas que consigo traz a maldição que poucos aguentam suportar. Assim como as ordálias de Caim, muitos desejam estar no deserto, mas poucos consegue de fato atravessá-lo. E neste caminho, aquele que se arrisca a percorrê-lo, é posto no deserto e mesmo em meio à multidões é obrigado a suportar as ordálias da solidão ou... renegar-se a si mesmo e aquilo que existe dentro de si.

Vestir a máscara é uma forma de sobrevivência, pois os tolos condenam e matam aquilo que não entendem ou desconhecem, bem como a verdade. Então é preciso fazer mentiras serem símeis aos fatos, do mesmo modo como os negros fizeram mentiras serem símeis aos fatos ao transformarem Orixás em Santos, quebrando o ícone de barro.