sábado, 24 de março de 2012

RESPONDENDO AS DÚVIDAS V

Olá!! Jair..
Sei que você hoje segue a Jurema.... mas como deixou aberto que responderia, as perguntas....Pertenço a uma Tradição Pagã que cultua os Ancestrais, porém tenho lido, em alguns sites visões diferentes de Ancestralidade, por isso queria saber:

1. Como você define ancestralidade..?

2. Qual a diferença hoje da sua visão de ancestralidade com relação à antiga quando era Pagão?

Olá Irmão E.M...

Obrigado por escrever.... 

Ancestral é o nome que normalmente se atribui a um ascendente já morto ou que se localiza a várias gerações anteriores na representação gráfica da árvore genealógica, em palavras simples, são todos os Ascendente familiares da pessoa, os antecessores genéticos de alguém, como exemplo bisavós, avós, pais e etc.


Desta forma, conclui-se que os antepassados ou ancestrais de alguém é parte de sua própria existência, está circunscrito aos antecessores da família.


E aqui começo de fato a responder a segunda parte da pergunta à você, e para tal, é preciso, como sempre faço nas demais respostas, estendê-la por explicações preliminares para que ela fique bem clara e não deixe dúvidas, também, deixou mais uma vez bem explicito, que o que falo corresponde apenas AO MEU PONTO DE VISTA e NÃO É DE MODO ALGUM ESPELHO DE DOGMA OU VERDADE PARA NINGUÉM ALÉM DE MIM,

Quando iniciamos nossa jornada Espiritual, nossa visão de Ancestralidade pautava-se pela necessidade de sermos reconhecidos como praticantes pelos demais, e por isso, ao invés de buscarmos a sabedoria constante em nossa própria genética, que já sabíamos ser o correto, cometemos o erro de buscar “Ancestralidade Mítica” ensinada pelos Pagãos da época...



Em resumo eles nos ensinaram que a Religião da Deusa era a única e verdadeira, era a Antiga Religião até que do nada, os homens sentiram ciúmes do útero e criaram o “Patriarcado”, relegando a (inerte) Deusa às sombras, perseguindo seus adoradores que se esconderam nas florestas e protegeram a sabedoria antiga... Esses perseguidos deviam ser evocados nos ritos, pois eram os nossos verdadeiros ancestrais da Bruxaria, eles eram seres sábios, iluminados, cheios de amor, seres que adoravam pacificamente a Deusa e ao Deus nos bosques junto com as Fadas, Elfos, Gnomos, Salamandras e muitos outros seres da mitologia Européia, e, nossos ancestrais foram perseguidos, também, na idade média pela Igreja... e como não líamos livros de história,  antropologia, mitologia comparada, história da religião, dentro outros, nos deixamos levar conscientemente como patinhos nisso!!. Aceitamos essa visão infantil enraizada dentro de nós, durante dez anos, e clamávamos e evocamos todos os seres que segundo nos diziam tinha fundado nossa Tradição Pagã.

Hoje, mas amadurecidos (e depois de ler muito), temos a consciência, que nossa submissão a essa estória de ancestralidade mítica, não era tão completa, nossa aceitação encobria outros motivos, e a diferença de hoje para ontem, é que no fundo, cada um de nós, quando falamos de nossos (pseudos) ancestrais da Arte no nosso antigo Coventiculo sabíamos que errávamos e ao mesmo tempo nos afastávamos de nossos verdadeiros Ancestrais, dos Mortos Poderosos de Nosso Sangue. O verdadeiro motivo, estava intrínseco, “Dramas Familiares”.

“Dramas Familiares” são termos bonitos para simplificar, o que de fato passávamos (e deslocávamos), talvez, seja indiscreto falar assim abertamente desses fatos, pois podem causar revoltas, e até mesmo desviar do teor da resposta. Mas, sempre fui prolixo, e gosto sempre de deixar claro os motivos da minha visão atual e assim dirimir dúvidas...

Continuando, todos nós ali no Coventiculo éramos desajustados, do ponto de vista familiar, cada um carregava seu fardo calado, e juntos, no mundo de faz de conta, tínhamos a família perfeita, com perfeito amor e perfeita confiança, com carinho, compreensão, liberdade... Sim, o mundo de “Bobby”, lindo e florido... No mundo do faz de conta podíamos nos desligar da família real, que acreditávamos que nos oprimia... E isso foi de fato o motivo justificador para aceitarmos pacificamente naquela época o “Ancestral Mítico” em detrimento dos antepassados de nosso sangue...

Mas a realidade, nua e crua, nos assombrava de vez enquando, e sempre se mostrava pelos lugares sombrios da mente, e no fundo do coração sabíamos que estávamos assentados sobre um barril de pólvora preste a explodir ao menor atrito, a menor fagulha... E o tempo fez isso, ele explodiu e desestruturou tudo, destruiu o mundo cor de rosa, o faz de conta ruiu, a casa caiu!!!

Agora temos motivos suficientes para respaldar a diferença da visão de ontem para a de hoje... Explico!!! Como vejo hoje essa questão e lamento se causar polêmica... O problema consiste na velha síndrome de vira lata nacional, misturado a um extremo mecanismo da fuga de quem se é de verdade, assim percebo a seguinte tônica quando o assunto é Ancestralidade Hoje (e por isso me distanciei do paganismo de modo geral)

“...Nossos parentes mortos estão muito perto de nós, nossas bisavós podem puxar nosso pé à noite, nossa família tem defeitos e nós nos envergonhamos de nossa origem (Branca com Indígena, Branca com Negra, Indígena com Negra ou Mestiça das três, não importa), ela não é parte das sagas Celtas da Europa (até porque nunca me interessei de fato por ela e nem pela história de minha gente) ela é, bastarda, composta de degredados, pobres, sem títulos, sem futuro, sem riqueza, sem estudo, sem profissão, e por isso renegamo-la e aceitamos de bom grado a nossa linhagem Ancestral Mítica. Pois, nossos Ancestrais Míticos, são perfeitos..... Nossa linhagem genética, cultural, folclórica, lendária, nossos mitos, lendas e seres mitológicos são desajustados.......Nossa Herança é Imperfeita...!!!... Em fim, Não queremos nossa avó ranzinza e beata nos assombrando à noite, muito menos nosso pai alcoólatra que espancava nossa mãe ou a nós nos visando nos trabalhos de feitiçaria...Pois são frutos desse desajuste, e eu, não sou parte disso, sou da linhagem Mítica... Prefiro os ossos de um desconhecido que roubo no cemitério, do que pegar um “legalmente” de minha tia fuxiqueira ou do meu primo drogado....Nos ritos sazonais evocamos um ancestral intocado, distante, que nada tenha de meu sangue e nem lembre minha família, e que acima de tudo que não se incorpore, pois seria ridículo a minha tia-avó que foi prostituta, se incorporar em mim, e beber e fumar e  mostrar-se como era no seu tempo e dar conselhos e tornar-se um espírito-guia, não quero ver ela reviver através de mim e me mostrar a morte (pela letargia da possessão), essa COMUNHÃO entre vivos e mortos, NUNCA...JAMAIS....Prefiro chamar alguma coisa de além mar, que não nos incomode, NÃO INCORPORE, NÃO FALE, NÃO ANDE, NÃO SINTA, então buscamos idealizações e expressamos desejos represados de ancestrais que não lembrem minha mãe e meu pai, porque eles não me entendem, não me compreendem não me aceitam (e eu continuo inerte, ao invés de ir buscar por meio do estudo e do trabalho um modo de me sustentar e sair da casa que chamo prisão)...”

Essa é em resumo a Tônica indireta que percebo dos defensores dos Ancestrais Míticos...

E depois disso, completo afirmando para você que, para nós hoje, a diferença de visões consiste em que para nós (TAMBÉM) nossos verdadeiros ancestrais, são os mortos de nossa linhagem de sangue, são os que forneceram o material genético que nos conecta com eles próprios,  sim, são nossos parentes mortos... São os habitantes da Necrópole que está debaixo de nossos pés, são que nos “acosta” e em comunhão bebemos o “Vinho de Fogo” da Árvore da Vida, árvore Nordestina, nascida no frio chão, e que no meu corpo carrego espinho e semente...

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Bem, estamos abertos a responder dúvidas, basta para isso usar o recurso de comentário aqui do Blogger ou enviar um e-mail para ellvs@yahoo.com.br, independente do teor da pergunta ou mensagem, não divulgaremos seu nome e nem contato, mas daremos sempre resposta em conformidade. 

12 comentários:

Ciclos Na Arte disse...

vejo que a ancestralidade por está no nosso gens,como vc tb coloca ,pode ser acessada com fidelidade,pois vive na gente e estando em comunhão com nossa cultura,nossas danças indígenas,nossas cantigas de roda acessamos nossas memorias e podemos assim assim chegara a comungar com nossos idos e ter conhecimento pela sabedoria deles ,pois vai e além de livros e de caminhos mais distantes de nós mesmos

Juremeiro Jair de Santana disse...

Exatamente isso, como lhe falei pelo Face, nisso consiste o perigo, essas memórias podem não, elas com certeza revivem e nos forja no fogo contido no nosso sangue, quando dançamos as danças daqui, eles dançam conosco e começa um elo de comunhão que vai se fortalecendo e assim nos levando a acessar conhecimentos outros que nos muda completamente..

Qelimath disse...

Olá Juremeiro Jair,

Parabéns, excelente e revelador ensaio. Concordo plenamente que não há como trabalhar só um lado da questão (ancestralidade mítica), em detrimento da ancestralidade consanguínea. Enquanto a primeira nos dá diretrizes e modelos de perfeição, a segunda nos remete aos padrões, bençãos e maldições que carregamos no sangue. Não há como prosseguir adiante sem tomar consciência e trabalhar esta segunda.
Para ser bem franca, passei a admirá-lo ainda mais pelo resgate espiritual e cultural que tem feito nos últimos tempos, muito mais do que nos tempos de "celticismo". Bom trabalho querido e boa jornada!

Juremeiro Jair de Santana disse...

Kety...
O que posso responder a você?.
..apenas silêncio, reverência e respeito... acada palavra sua...
Muito, mas muito obrigado mesmo...

roberto quintas disse...

wow wow wow. eu gostei do trecho falando dessa vie en rose que foi formatado e construido o [neo]paganismo brasileiro. realmente é lastimavel que estamos fazendo um trabalho preguiçoso, tipo pick'n'choose, mas o caminho pagão não pode ser um produto de conveniencia, um pagão moderno deve redescobrir e reconsagrar suas raízes, sua ancestralidade, bem como todos os aspectos do que esta bagagem traz consigo. eu ainda estou engatinhando, mas eu vou me esforçar para ter essa qualidade, essa nobreza que vocês tem.

Juremeiro Jair de Santana disse...

Roberto...
Não se trata de nobreza nossa, mas do cuidado de levar os pagãos a redescobrir um forma de neo-paganismo que seja mais atávica e menos recosntrucionista, pois o perigo desse último está em se basear em conceitos modernos (enraizados na moral) para julgar ou praticar os atos espiritual do paganismo antigo hoje.
No comentário da kety, tem um ensinamento "oculto", um "arcano" velado (pelo menso ao meu ver, será que vejo demais?), quem ler com acuidade e carinho o que ela escreveu em seu comentário aqui com certeza verá uma seta apontando um norte para (como diz você) "redescobrir e reconsagrar suas raízes, sua ancestralidade, bem como todos os aspectos do que esta bagagem traz consigo."
Obrigado por ler meu ensaio...
25 de março de 2012 11:47

Dila Zagreu disse...

SINTO a necessidade de levantar para reverência-lo de pé em estado de êxtase e puro gozo, em deferência a noite linda de apresentações do the voice Brasil canto pra ti... " eu vim de lá pequenininho
Alguém me avisou pra pisar nesse chão
Devagarinho
Sempre fui obediente
Mas não pude resistir
Foi numa roda de samba
Que juntei-me aos bambas
Pra me distrair
Quando eu voltar na bahia
Terei muito que contar
Ó padrinho não se zangue
Que eu nasci no samba
E não posso parar..."

Tula Bejart disse...

Muito bem colocado! Toda essa inquietude vem sendo gestada em mim. Me interessa conversar, trocar idéias, experiências e aprofundar esses conceitos e práticas.
Namastê

Tula Bejart disse...

Muito bem colocado! Toda essa inquietude vem sendo gestada em mim. Me interessa conversar, trocar idéias, experiências e aprofundar esses conceitos e práticas.
Namastê

Tula Bejart disse...

Muito bem colocado! Toda essa inquietude vem sendo gestada em mim. Me interessa conversar, trocar idéias, experiências e aprofundar esses conceitos e práticas.
Namastê

Tula Bejart disse...

Muito bem colocado! Toda essa inquietude vem sendo gestada em mim. Me interessa conversar, trocar idéias, experiências e aprofundar esses conceitos e práticas.
Namastê

Danilo disse...

Perfeito o texto, nada a acrescentar, realmente explica por si próprio de mia maneira nem simples e esclarecedora o assunto. Parabéns|!!!!